domingo, 26 de junho de 2016

O Fascista Que Mora Na Pessoa Boa


"Ninguém nasce ciente da existência das outras pessoas: isso é uma coisa que a gente aprende com o nosso desenvolvimento, e alguns nunca aprendem a ver no outro um “si mesmo”, mas isso também é uma coisa que pode ser aprendida, e qualquer projeto de militância e de transformação do mundo que não leve isso em consideração não é um projeto que realmente possa tornar o mundo melhor."


Texto alternativo:

Eu me motivei a fazer este texto devido a algo que me aconteceu recentemente: fui alvo de perseguição e ameaça na internet em função do meu posicionamento político. Foi um caso de importância muito reduzida, que acabou dando em nada, mas nem por isso menos notável e digno de reflexão, pois representa uma pequena dose de um fenômeno bastante generalizado e cada vez mais no momento em que vivemos.

O sujeito que visava, através de incessantes provocações, coibir meu direito de expressar meu ponto de vista deixou bem claro que tem asco, pra não dizer ódio, porque considera meus pontos de vista prejudiciais para o mundo. Pra quem quiser saber que opiniões eram estas, basta ver meu vídeo intitulado “Lugar de Fala tem Lugar”, na qual eu critico alguns conceitos de certa militância contemporânea. Mas o mais notável é que este tipo de atitude se espera de um defensor do fascismo, e no entanto o sujeito estava supostamente no mesmo campo do espectro político do que eu, e supostamente defende a democracia. Supostamente com muitas aspas, é claro.

O que acontece é que dentro de cada um de nós existe um fascista. Em alguns ele dorme, em outros ele interfere e em outro ele manda, dependendo do quanto você alimentá-lo. E seu alimento é o ódio e o ressentimento. O que é o fascismo neste texto¿ Não estou me referindo à política de extrema direita de Benito Mussolini, que seria o sentido estrito. Tomo liberdade com a palavra e falo de um sentido mais abrangente, como sendo um ponto de vista autoritário, intolerante e insensível com a vida e a dignidade humana.

Se a democracia, em teoria, é um projeto de sociedade onde estão inclusas as diferenças e cada grupo tem seu espaço, além de oferecer respeito às liberdades individuais, o fascismo seria o oposto disso: a negação do outro, a exclusão da diferença e a recusa em considerar e respeitar a individualidade de outrem. E repito: todo mundo tem um fascista dentro de si: alguns sob controle, outros fora de controle.

E isso inclui pessoas integras do ponto de vista dos seus próprios valores morais. Podem ser pessoas honestas, até mesmo religiosas, e até mesmo preocupadas com os animais e aqueles que estão imediatamente ao redor. Porém, estas mesmas pessoas em geral podem acreditar que existe um certo grupo de pessoas que não são dignas de piedade, e das quais se pode agredir, violentar ou até mesmo eliminar.

Isso acontece porque ao viver num mundo cheio de injustiças, violências e misérias, as pessoas em geral acabam colocando a culpa disso tudo em certos grupos, assim como para o antissemita é o judeu, pro homofóbico é o gay, pro fundamentalista é o herege. Além dos fatores sociais, econômicos e políticos que levam as massas a ter este tipo de pensamento, existe o peso da cultura e das tradições.

Mas só estes fatores não bastam pra explicar este tipo de comportamento: existem explicações psicológicas e cognitivas em conjunto com os demais fatores que possibilitam esta ordem de preconceito. É que quando entramos em contato com o conhecimento de certos grupos de pessoas, criamos seus conceitos a partir da diferença, e assim temos uma representação mental daquele grupo que pode estar associado a muitas outras ideias boas ou ruins.

Creio que por uma espécie de instinto de sobrevivência as pessoas tem a tendência de ter medo das diferenças e a lhes atribuir qualidade depreciativas, e eventualmente eleger alguns como a causa principal de todas as mazelas do mundo. Estas associações costumam ser mais ou menos arbitrárias, mas aquele que acredita não é capaz de perceber as falhas do se pensamento porque seu discurso não é racional, mas é puramente passional.

Dentro da representação distorcida, as pessoas que compõe o grupo maldito não tem individualidade própria, e são vistos como meras extensões de uma espécie de entidade coletiva. É como se não fossem pessoas de verdade, mas espantalhos, e com estes não há problema algum em humilhar, torturar ou matar, pois eles são imorais. Não importa quão cruel seja a maldade praticada contra estas pessoas, serão sempre justificados porque afinal eles merecem ou são prejudiciais para o restante. É isso que diz o fascista dentro de cada um de nós, inclusive dentro da pessoa boa.

Os grupos de pessoas muitas vezes são selecionadas não com base no que elas pensam e fazem, mas com base em algo que elas nem puderam escolher, como cor, sexo, origem. Quando se trata de bandidos, mesmo assim é uma visão errada, mas é até mais fácil de compreender. Mas nossa sociedade possui algumas estruturas de poder muito bem estabelecido, e que marginaliza certos grupos, ela pode muito bem associar a negritude com o crime, a pobreza com a vadiagem, a homossexualidade com a devassidão, e tudo isso com o pecado.

Muitas vezes as pessoas reproduzem juízos que carregam esta dose de preconceito sem perceber. Expressões como “traveco”, “viado” ou “vadia” desumanizam certos grupos de indivíduos, transformando-os em caricaturas ou coisas, como se não fossem seres humanos, e o fazemos muitas vezes não por mal, mas por não compreender as consequências disso.

Mas como se trata de um processo natural, isso não ocorre apenas com aqueles que detém o poder ou privilégios. Este mesmo raciocínio (obviamente equivocado) ocorre aos que sofrem com eles, e portanto fazem uma associação automática de certos grupos de indivíduos com o que chamam de opressões estruturais, como a associação automática dos homens com o machismo, dos brancos com o racismo, dos héteros com a homofobia, em versões mais ou menos tacanhas.

Portanto, causas justas e necessárias também são afetadas por estas concepções equivocadas e podem ser danosas para indivíduos singulares ou para a própria causa. É claro que aqueles que compram este tipo de discurso que reduz toda a realidade num esquema simplório de amigo e inimigo geralmente criará discursos que justifiquem este pensamento.

Alguns alegam, por exemplo, que os oprimidos não estão errados quando generalizam seus inimigos porque não se trata de uma opressão estrutural. E eu até concordaria se fosse isso que estivesse em questão, mas nós alegamos que não é uma opressão estrutural mas é também uma forma de ignorância que eventualmente gera injustiças e violências desnecessárias; e felizmente muitos dos tais oprimidos não caem nesse tipo de erro, pois podem muito bem ser esclarecidos com relação a isso.

E, nesse espírito autoritário que por vezes domina as causas justas e populares, volta-se a julgar as pessoas não pelo que elas pensam ou fazem, mas pela cor, sexo ou origem, ou apenas por uma diferença de entendimento. Concepções como essas nascem do ressentimento, que também é alimento para o nosso fascista interior, e por mais justificável que seja o ressentimento, importa ter cuidado pra que ele não turve nosso discernimento.

Pra quem não foi capaz de entender, não estou dizendo que estas pessoas são fascistas. O que eu digo é que há um fascista dentro de todos que podem ou não acrescentar um elemento fascista no pensamento e na ação dependendo do quanto ele é alimentado pelo ódio. O ódio é um sentimento comum cuja evocação é mais ou menos involuntária, e muitas vezes sua presença é perfeitamente justificada e inevitável. Muitas vezes podemos identifica-lo em nós e tentar lidar com ele. Alguns, porém, transformam o ódio e o ressentimento em doutrina. Nada de bom pode sair daí, e o ódio, que tantos problemas já criou, nunca resolveu nenhum. O que já resolveu problemas foi outra coisa.

O fascista que mora dentro de cada um de nós pode ser combatido através da razão, da sensibilidade e da empatia, lembrando que empatia não é colocar-se no lugar apenas dos seus, mas sim do outro, do diferente, e reconhecer em cada ser humano uma individualidade. Exercitar isso não só é bom, mas é possível e necessário, ainda que exija certo esforço, caso realmente queiramos mudar o mundo pra melhor. Quem quiser melhorar o mundo tem que tentar transformar também a si mesmo.

Desta forma podemos aprender a aceitar as diferenças, os outros pontos de vista, salvo no caso de discurso de ódio, que não temos que hostilizar quem pensa diferente, nem obriga-los a ser como nós; que não devemos julgar os indivíduos em função de fatores que não foram da sua escolha, e mesmo quando são, não vê-las sempre com o olhar enviesado, com um raciocínio viciado nos velhos julgamentos injustos, apressados e irrefletidos, mas com certa abertura para se pôr no lugar daquele e compreendê-lo sempre um pouco melhor. E compreender que a violência, em todas as suas formas, deve ser usada somente para a defesa, quando esta se faz necessária, e sempre como o último recurso.

Ninguém nasce ciente da existência das outras pessoas. A alteridade é algo que aprendemos com o desenvolvimento, e alguns nunca aprendem a ver no outro um “si mesmo”, mas isso também é passível de aprendizado. Qualquer projeto de sociedade que não compreenda isso, não é um projeto que realmente possa tornar o mundo melhor.

domingo, 17 de janeiro de 2016

Militância Acrítica 1: Lugar de Fala Tem Lugar



"Uma parte da militância é confronto e rompimento, mas outra parte é consenso, diálogo e convivência. Esta parte não é descartável. Ela é essencial."
"As minorias seriam maioria se estivessem unidas, e o dia que cada um pensar apenas na própria causa, não haverá esperança para nenhuma dessas minorias."




Transcrito do vídeo:

Só dê sua opinião depois de ter visto o vídeo até o fim.

Todos os meus vídeos até hoje eram dirigidos para o público em geral, mas desta vez resolvi inaugurar uma série que eu dirijo a alguns setores da esquerda por entender que é necessário estabelecer um diálogo com eles: abrir um espaço para esclarecimento de certos conteúdos é imprescindível na medida que algumas concepções, vistas e tratadas de forma superficial, ou mesmo levianamente, podem ser extremamente danosas. É uma serie, então, por uma esquerda mais crítica.

Nas últimas décadas esteve crescendo dentro dos movimentos sociais um debate sobre quem tem direito à palavra sobre determinadas causas e militâncias. E o resultado dessas discussões muitas vezes termina numa tensão: de um lado militantes de uma determinada causa que sentem seu espaço invadido e controlado e, do outro, não se veem na possibilidade de participar ou de compartilhar ideias e informações.

Muitos intelectuais da contemporaneidade demonstraram como grupos minoritários ou marginalizados foram silenciados através da história: sua visão de mundo, suas experiências, sua identidade própria foi muitas vezes negligenciada pela visão de mundo “oficial”, e até mesmo pelas próprias esquerdas. Assim, foi demonstrado que é preciso levar em consideração a experiência particular do negro, da mulher, do gay, do trans, etc, sobre o que eles pensam de si mesmos e na condição que eles vivem no mundo. É preciso que tenham voz e é preciso que seja levado em consideração inclusive os aspectos subjetivos que dizem respeito à sua identidade, e não simplesmente deslegitimado por um suposto observador “neutro”, um portador da verdade, e aliás, que verdade?

Daí também se conclui que, na luta pela emancipação de determinado grupo, quem deve protagonizar tal luta são os próprios membros do grupo, ou seja, os negros e não os brancos no combate ao racismo, as mulheres e não os homens no combate ao machismo, e assim por diante. Com “protagonizar” entende-se que estes grupos devem ser dirigidos pelos seus próprios representantes, para que possam se basear na sua própria experiência, e não sendo rebocados pelas maiorias ou na dependência daqueles que não sofreram dos problemas contra qual eles lutam.

Eu pessoalmente concordo com tudo isso. Mas, a partir deste entendimento nasceram uma porção de práticas e concepções que, por honestidade intelectual, eu sou obrigado a questionar, e vou justificar meus pontos aqui. Eu sei que este vídeo pode ser assistido por pessoas que eventualmente estão acostumados a dar respostas prontas e imediatas às posições opostas, mas eu gostaria de abrir este inquietamento para que vocês pensem e ouçam de maneira disposta os argumentos que eu vou apresentar.

Já vi, por exemplo, em nome do “protagonismo”, militantes atacarem outros militantes por fazerem uma coisa que sempre foi prática na militância, que é apoiar outras causas. E quando digo “apoiar”, eu não estou dizendo quere dirigir ou querer roubar o protagonismo, mas simplesmente de participar e as vezes até mesmo de querer prestar apoio. Um exemplo bastante comum e até patético que a gente vê nas redes sociais são certas feministas rechaçando alguns homens por estes estarem apenas declarando apoiar o feminismo. Estariam confundindo prestar solidariedade com roubo de protagonismo? Não haveria uma diferença importante entre essas duas coisas?

Ou quando este explana a respeito do tema, também acontece de militante também rechaçá-lo em nome da conquista dos “espaços”, como se um branco falar sobre o racismo, por exemplo, exclui um negro de falar disso naquele mesmo espaço, visto que na opinião destes não há espaço para ambos se expressarem. É preciso refletir com muita calma aqui: existem, de fato, circunstâncias em que o espaço deve ser reservado para aquele que representa uma luta. Trata-se de ocasiões importantes em que essa reserva é producente, e não simplesmente qualquer circunstância em que se vir um branco falando sobre racismo. É preciso ter algum critério para discernir cada caso.

Essa é uma tendência à criação de guetos indentitários nas quais não há circulação de ideias. Se é vedado ao outro o direito mesmo de falar a respeito da causa alheia, quem dirá então participarem ativamente dessas militâncias, discutindo, propondo e agindo? Isso acaba ficando totalmente fora de questão, e aliás, existe uma concepção medonha da qual o não-oprimido não só não pode falar sobre estes temas, mas não pode nem pensar sobre eles: há quem acredite que, se você não viveu algo, você não é capaz compreendê-lo. Uma incapacidade cognitiva, pois aquele que tem algum privilégio na sociedade desenvolve sua visão de mundo sempre em função da causa própria, que é apenas dominação e aparências. A “essência”, só o oprimido vê. Então, se o hetero está falando de homofobia, não resta dúvidas de que ele merece uma retaliação pedagógica, com agressividade, de preferência. Claro que estou fazendo uma simplificação aqui, mas pelo visto tem gente que pensa isso.

Muitos destes militantes pretendem estar partindo das ideias de certos filósofos, dos quais eu admito que não sou nenhum especialista. Dos que eu já li e que podem ter exercido uma grande influência está o Michel Foucault, e definitivamente ele nunca falou essas coisas. Suponho que tenha havido uma perversão dos conceitos destes autores, seja por uma má leitura ou por uma má intenção, para endossar esta retórica. Eu imagino o Foucault olhando essa galera e baixando a cabeça, triste. E não citaria tão somente a Foucault – embora este seja o único que eu tenho certo domínio – mas creio que seja possível abranger estas questões também para outros autores, como Judith Butler, Simone de Beauvoir, entre outros: a agressão ao opressor merece posição, contexto e reais problemáticas para além do mero debate ou da divergência ideológica.

Esta militância em questão muitas vezes é rotulada de "pós-moderna", pecha que eu considero injusta com a filosofia pós-moderna, pois, apesar dela ter aberto precedente pra este tipo de coisa, do ponto de vista filosófico ela traz reflexões perfeitamente válidas e de forma alguma se resume à tal atitude mental acrítica. Esta filosofia também já foi rotulada de irracionalista, rótulo que eu também nem sempre considero justo, mas para esta militância em questão eu considero justo.

Chamo de militância irracionalista porque nega o papel da razão no entendimento do outro ou de outro grupo social, desacreditando assim que a linguagem possa informar alguém adequadamente sobre uma dada situação, privilegiando apenas os aspectos subjetivos: a “vivência”, então, foi eleita como o critério único para o entendimento. Tal afirmação é contraditória por si só uma vez que ela é objetiva e racional (mesmo que equivocada).

Vamos deixar uma coisa clara: quando alguém tem uma vivência sobre algo, isso pode sim ter peso sobre o argumento, uma vez que ela viu ou sentiu aquilo em primeira mão. Mas em casos específicos! se uma mulher disser que é ofensivo levar cantada na rua, não adianta um homem querer dizer que é elogioso, pois como ele pode saber como as mulheres se sentem? Só que a vivência é fator a se levar em consideração em maior ou menor grau dependendo da circunstância e da ideia apresentada, e é preciso ter algum discernimento para saber separar uma coisa da outra, e não simplesmente eleger isso arbitrariamente como único legitimador de um discurso.

Em primeiro lugar, a princípio, ninguém tem a mesma vivência que ninguém. Cada um tem as suas próprias vivências singulares e, se fosse assim ninguém poderia falar em nome de ninguém, nem um negro em nome dos outros, nem uma mulher em nome das outras. Porém, a coisa não é bem assim, pois o ser humano possui a faculdade da razão, faculdade esta que é universal e que transcende a experiência imediata. Não estamos trancados na nossa própria experiência particular, ou então a própria comunicação seria impossível. Através da comunicação e da razão, é possível que uma pessoa entenda uma mensagem seja lá de onde venha.

E se fosse verdade que só o gay entende o gay e só a mulher entende a mulher, então também seria verdadeiro que só o hetero entende o hetero e só o homem entende o homem, e aí vocês também não poderiam fazer nenhuma crítica. Percebe que se o primeiro enunciado é válido, o segundo também é? E não adianta recorrer pra uma retórica de que os opressores são cegos e só os oprimidos têm acesso à “verdade”. Isso iria contra a própria retórica da vivência que vocês sustentam, se vocês forem capazes de ser consequentes com o próprio pensamento.

Se a vivência fosse referência para a verdade, então não haveriam tantos oprimidos ignorantes da sua própria condição e eles até mesmo concordariam com a maioria dos pontos. Por exemplo: se a vivência fosse o critério definitivo pra compreender determinada opressão, não haveriam tantos negros reproduzindo discursos e atos racistas, que vão desde negar a própria negritude até discriminar outros negros. Além disso, a maioria dos negros, senão todos, deveriam concordar com as mesmas concepções da militância. O mesmo seria verdadeiro no caso da mulher: se a vivência fosse o critério definitivo, não haveriam tantas divergências dentro do feminismo, sobre a condição da mulher, sobre a participação dos homens no feminismo, etc. Porém, como vocês podem notar, cada mulher tem a sua própria vivência individual, e isso não pode ser usado pra sustentar que existe um ponto de vista que seja o único legítimo “das mulheres”. Este critério não se sustenta.

No mais, recusar um argumento com base na sua fonte é cometer uma falácia chamada ad hominem que consiste em atacar o autor do argumento e não seu conteúdo. É uma forma barata de desqualificar uma ideia sem ter que pensar nela. Se o que você defende tem algum cabimento, você não precisaria utilizar esse tipo de desqualificação, e sim contra-argumentaria com base no que foi colocado. Lembre-se: quando um argumento é colocado, não interessa quem disse; atacar quem falou não tem valor de discussão e quem recorre a este tipo de falácia geralmente não está interessado na verdade, mas apenas em “vencer” a discussão.

Chega a ser patético que as verdades sobre as questões sejam eleitas com base não na apuração de conhecimentos estudados, mas sim na autoridade de quem disse, como tantas vezes na história da humanidade se recorreu à figura do sacerdote, do sábio, e mais recentemente na figura do especialista. Só que agora a autoridade emana do oprimido. Basta ser marginalizado que o sujeito já pode nos oferecer a maneira pela qual nós devemos entender o mundo. A experiência dela vale, a dos outros não, há uma hierarquia nas experiências das pessoas, bem diferente do que os pós-estruturalistas disseram.

Só falta esses militantes fazerem uma tabelinha das opressões para saber quem diz a “verdade”. Assim, João tem um argumento A e Maria tem um argumento B. A princípio, pode parecer que Maria é que diz a verdade, porque ela é mulher, mas aí descobrimos que João é Negro. E agora? Ah, mas a Maria também é negra, ela tem duas opressões, portanto é ela quem diz a verdade. Só que João além de negro é gay e paraplégico, ele tem mais opressões, tem mais vivência, portanto a vitória é do argumento dele. Vemos como a veracidade do argumento nada tem a ver com o argumento.

Pessoal, entendam uma coisa. Um argumento e uma discussão, para chegarem em algum lugar, precisam ter alguns critérios e rigores lógicos. A lógica não é uma simples retórica opressora, eurocêntrica e colonizadora inventada para justificar a escravidão; a lógica diz respeito não ao conteúdo de um argumento, mas à sua forma, e nem toda forma pode ser válida, ela não pode conter erros de raciocínio para ser corretamente compreendida. É preciso discutir a validade da forma do pensamento para que seja possível o próprio entendimento. Por exemplo: se eu te disser que vi um círculo com quatro pontas, você não tem como entender o que eu falei, porque o que eu falei é ilógico. Círculos não tem pontas por definição, e não, não estou sendo ponto-fóbico e nem círculo-normativo. Você simplesmente não pode compreender o que foi dito porque a fala não teve lógica.

Se, por exemplo, uma pessoa diz que é contra os muçulmanos porque eles são terroristas, esta afirmação é falsa (ser muçulmanos não é sinônimo de ser terrorista) e portanto o seu argumento falha no conteúdo. Agora, se ela tentar justificar a fala dela recorrendo ao atentado às torres gêmeas ou na França pra demonstrar que muçulmanos são terroristas, então ela vai estar errando na forma (existem muçulmanos terroristas sim, mas isso não quer dizer que sejam todos) ela estará recorrendo à falácia da generalização apressada. E se você tentar contra-argumentar esta pessoa, ela ainda pode te acusar de estar defendendo o terrorismo, errando mais uma vez na forma (não ser contra os muçulmanos não é o mesmo que ser a favor do terrorismo) é a falácia da falsa dicotomia. Nestes casos nós até conseguimos entender o que a pessoa está dizendo, mas percebemos que o raciocínio dela não tem validade. Quando você desqualifica alguém com base na “vivência” ou “lugar de fala”, você pode estar fazendo a mesma coisa: apelando para um raciocínio equivocado.

Além do mais, não basta que a lógica seja observada. Uma opinião tem que se basear em algum conhecimento, e isso exige estudo. Para entender o racismo, por exemplo, não basta senti-lo na pele. Sentir na pele ajuda a pessoa a entender, é claro, mas só isso não basta, tanto é que tem quem sinta na pele e mesmo assim não entenda. Pra entender o racismo é preciso estuda-lo: estudar a sua origem, sua história, seu funcionamento, e é possível estudar estas coisas independente da cor de quem estuda.

É claro que não se deve simplesmente reivindicar seus estudos pra apelar à autoridade, como aquele que diz: já estudei isso, isso e aquilo e portanto sou o dono da verdade. A importância de estudar é compreender os estudos para apresentar os conhecimentos e fundamentar os argumentos, que estarão sujeitos à contra-argumentação. Além disso, a partir dos conhecimentos estudados podemos extrair mais de uma interpretação, o que só reforça a importância da discussão e de compreendermos mais de um ponto de vista, mesmo que não concordemos com ele.

Uma das coisas mais esdruxulas que se observa nesses militantes é a utilização da expressão “silenciar” para quem discorda deles. Discordar não é silenciar. Se você reclama de estar sendo silenciado por alguém discordar de um ponto de vista seu, então você é uma criança mimada que não suporta ser contrariada. Silenciar é impedir uma pessoa de falar ou desconsiderar o que ela diz, desqualifica-la em função da sua condição. E se você desqualifica uma pessoa dizendo que ela está te silenciando por estar te contradizendo, é você é que está silenciando ela. E não entra em questão aqui se a pessoa é privilegiada e se supostamente sempre foi ouvida pela sociedade, naquele momento é você que estava silenciando ela e, portanto, apresentando a sua falta de argumentos.

Eu concordo plenamente que um homem não deva falar em nome do feminismo, um branco falar em nome do movimento negro, etc. Mas isso não significa que eles não possam falar sobre. Primeiro pela simples razão de que todas as pessoas têm o direito de ter ideias e de expressá-las. Uma vez que essas ideias são expressas, os discordantes têm todo direito criticá-las, mas não de criticar o direito de expressá-las (salvo em caso de discurso de ódio). Portanto, quando um hetero fala sobre o movimento lgbt, os gays militantes discordantes tem todo direito de criticar o que ele disse, mas não devem questionar o seu direito de falar.

Além do mais, e isso parece que não entra na cabeça das pessoas, é que todas essas bandeiras não dizem respeito somente aos movimentos que eles representam ou são protagonizados. Elas tem em si um novo projeto de sociedade, sociedade na qual os demais continuarão existindo. Portanto é do interesse de todos discutir esses temas.

Sendo assim, os “outros”, os “não-negros”, os “não-gays”, podem estar perfeitamente interessados no fim do racismo e da homofobia, por exemplo, e, se são capazes de entender que eles não protagonizam nem controlam os respectivos movimentos, podem pelo menos fazer a sua parte. Como apoiar estas causas lhes interessa, é natural que eles participem de discussões, pra aprender, compartilhar suas ideias, suas experiências e, se possível, contribuir. Não há nada de errado na discussão: ela é, ou deveria ser, saudável. A ausência dela é que é insalubre, e geralmente é sintoma de dogmatismo e do pensamento acrítico.

Em discussões, pontos de vista diferentes se chocam. O que não deveria haver é o choque de egos, de vaidades. Problematizar determinado assunto não é deslegitimá-lo. Todos os movimentos sociais devem buscar manter-se críticos e autocríticos, com compromisso pelo conhecimento e na buscando estar em constante melhoramento. Isso envolve criticar e ser criticado, falar e ouvir. Olhar para si sem preconceitos e sem medo de repensar e reciclar sua bagagem. Vamos acabar com esses discursos prontos que servem somente para repelir diálogos. Por trás de quem faz isso geralmente há pessoas que interpretam o que foi dito sempre de maneira enviesada; que não conversam, agridem; e terminam geralmente por “vencer” a discussão através da rotulação. Uma série de jargões e frases pré-fabricadas celebram não apenas a falta de argumentos, mas a própria incapacidade de dialogar. Crianças mimadas também se comportam assim: não podem se ver contrariadas sem baterem o pézinho.

Porque considero importante discutir isso? É importante que as militâncias cheguem à consensos e ajam juntas, que integrem lutas e que, ao menos, sejam capazes de ter raciocínios válidos para poder agir de maneira eficaz. As minorias seriam maioria se estivessem juntas, e o dia que cada um pensar apenas na própria causa, não haverá esperança para nenhuma dessas minorias.

Uma parte da militância é confronto e rompimento, mas outra parte é consenso, diálogo e convivência. Esta parte não é descartável. Ela é essencial. Se você não tem paciência pra discutir mesmo com quem está disposto a conversar, então você não precisa ser militante. Você pode fazer outra coisa, pode prestar apoio, pode até não fazer nada, mas sair por aí fazendo birra em discussões é um desserviço à qualquer causa, a não ser a do inimigo, é claro.

quinta-feira, 16 de julho de 2015

A Tal da Governabilidade


"Para falar no governo da nossa presidência, assim como qualquer outro, ele é produto de uma determinada correlação de forças, oriunda de um arranjo que se deu num determinado contexto e a partir de uma determinada estratégia"


quarta-feira, 8 de abril de 2015

Reduzir a Maioridade Penal. O Que Acontece?



Clique no vídeo abaixo



"A lei não pode ser baseada nas nossas emoções num momento de revolta e muito menos no desejo pela punição. Devemos pensar na melhor maneira de resolver os problemas sociais, e com um tratamento sério do assunto, podemos perceber que reduzir a maioridade penal não resolve nem ameniza o problema, mas o agrava. Para isso precisamos olhar para além do óbvio e do senso comum."

sábado, 14 de março de 2015

Corrupção e Indignação Seletiva



Clique no vídeo abaixo:



"Atualmente, no Brasil, existem dois partidos favoritos e muito populares: um deles é o PT, e o outro é o “fora PT”. Desde as últimas eleições ficou muito claro que os adeptos do “fora PT” estão dispostos a tirar o PT a qualquer custo, votando no PSDB e alguns até mesmo clamam por uma intervenção militar. A ideia é que qualquer coisa é melhor que o PT, já que tal partido seria, entre as opções disponíveis, o mais corrupto e autor dos maiores casos de corrupção da história do país. Pra você que é adepto desta “corrente”, tem disposição pra falar sobre corrupção à sério?"

sábado, 14 de fevereiro de 2015

sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

4 Pontos Sobre a Relação dos Homens com o Feminismo

Qual o papel do homem que apoia o feminismo?

Este texto não trata sobre o feminismo. Ele parte do pressuposto que o leitor já saiba o que significa feminismo e que compreenda que existem contradições dentro do pensamento feminista, com várias correntes e linhas de militância. Este texto trata somente de alguns pontos bem específicos que envolve discussões correntes e já bem conhecidas por quem o apoia. Discussões que, creio, são importantes. Eu poderia fazer um texto muito longo, explicando melhor os meus pontos de vista, mas acreditei ser um esforço vão e preferi colocar apenas quatro ideias centrais de maneira sucinta, embora eu saiba que deixem margem para incompreensões e críticas pré-fabricadas. Espero, porém, que hajam ainda aqueles que pensem e discutam as ideias apresentadas – e não apenas as rotule e desclassifique.

1. A mulher é quem protagoniza a luta feminista. Um homem não deve, portanto, falar EM NOME do feminismo. Mas não há problema em um homem falar SOBRE o feminismo, pela simples razão de que todas as pessoas – TODAS – tem o direito de ter ideias e de expressá-las. Uma vez que essas ideias são expressas, os discordantes têm o direito criticá-las, mas não de criticar o direito de expressá-las (salvo em caso de discursos de ódio que alimentam a violência). Portanto, quando um homem fala SOBRE o feminismo, as feministas discordantes podem e devem criticar o CONTEÚDO da sua opinião, mas não devem questionar o seu direito de falar.

2. É um fato que os homens são beneficiados pelo machismo. O mesmo fato não torna verdadeira a ideia de que homens particulares não possam ser prejudicados por ele. Algumas feministas chegam mesmo a acreditar que o machismo só fornece vantagens para todos os homens; e outras, indo mais além, que todos eles estariam compromissados em mantê-lo, isto é, que nenhum homem realmente deseja o seu fim.

Acontece que o machismo cria um determinado padrão ético e estético (mais de um, na realidade) do qual nem todos se identificam nem podem se identificar. Os gays são o exemplo mais eloquente, no entanto mesmo um homem heterossexual que esteja em desacordo com as exigências impostas pelo machismo, será discriminado - tanto pelos homens, quanto pelas mulheres, de maneira geral. Isso pode ocorrer quando ele não tem a aparência exigida pelo machismo, a forma de lidar com a sexualidade exigida, os gostos exigidos, e inúmeras particularidades que variam de indivíduo para indivíduo, mas sobretudo quando são demasiados sensíveis ou estranhos para os padrões do machismo.

Em nenhum momento eu equiparei a opressão que a mulher sofre pelo machismo com o que o homem sofre, nestes casos. A questão, a saber, é: homens também são discriminados pelo machismo, quando este não o considera “homem de verdade”. E mesmo aqueles que saberiam utilizar o poder que o machismo lhes provém, estes podem, como acontece em alguns casos, não quererem este poder, pelo simples fato de que são capazes de sentir empatia e não admitirem injustiça. Estes esperam, verdadeiramente, que o machismo acabe. O feminismo liberta também o homem.

3. O feminismo é uma luta das mulheres, mas ele tem em si um novo projeto de sociedade: um projeto que envolve tanto homens quanto mulheres. Sendo assim, queira ou não, ele é do interesse dos homens. Existem algumas correntes feministas que fazem uma verdadeira satanização do homem: existem feministas, por exemplo, que alegam que todo homem é um estuprador em potencial. Oras, eu não me considero um estuprador em potencial. Pois para ser um estuprador é necessário ser um sádico. Será mesmo que essas mulheres acreditam que todos os homens são sádicos? É certo que mulheres sádicas podem ser estupradoras em potencial. 

Esta visão de mundo torpe levou uma moça, que eu chamava de amiga, quando “descobriu” que os homens são a encarnação do mal, a se autoproclamar “misândrica”, e desde então passou a me tratar como um qualquer, ou pior que isso, como alguém que lhe oferece algum perigo (nunca ofereci). De um momento para o outro ela mudou comigo e não foi mais minha amiga.

4. Entre diferentes feministas não há consenso a respeito do papel do homem que apoia o feminismo, variando desde aquelas que acham que eles não devem fazer mais que calar a boca até aquelas que lhes atribuem uma participação mais ativa, o que pode significar muitas coisas. O que todas estão de acordo é que o feminismo é das mulheres, isto é, seria um contrassenso a luta pela emancipação feminina ser dirigida e controlada por homens. Os homens, por seu lado, podem compreender isso perfeitamente e, paralelamente, procurar fazer a sua parte recusando-se a reproduzir práticas e discursos machistas. Como apoiar o feminismo lhes interessa, é natural que eles participem de discussões a este respeito para aprender, para compartilhar a sua visão, sua experiência e, se possível, contribuir. Não há nada de errado na discussão: ao contrário, ela é (ou deveria ser) saudável. A ausência dela é que é insalubre, e geralmente é sintoma do dogmatismo e do pensamento acrítico.

Em discussões, pontos de vista diferentes se chocam. O que não deveria acontecer é o choque de egos, de vaidades, embora isso ocorra com mais frequência, dentro das militâncias, do que eu gostaria de admitir (e me obrigo a dizer aqui). PROBLEMATIZAR determinado assunto NÃO É DESLEGITIMAR. Todos os movimentos sociais devem buscar manter-se críticos e autocríticos, com compromisso pelo conhecimento e na busca por estar em constante melhoramento. Isso envolve criticar e ser criticado, falar e ouvir. Olhar para si sem preconceitos e sem medo de repensar e reciclar sua bagagem. Com efeito, existem feministas que, possuindo maturidade pessoal e política, estão a par da complexidade das questões políticas em geral, que são sensíveis e coerentes e, concordando ou não com os pontos de vista apresentados, discutem. Mas também existem aquelas que levam uma porção de discursos prontos que servem somente para repelir diálogos. Elas nunca discutem uma ideia proposta, discutem apenas quem a disse (ad hominem); interpretam o que foi dito sempre de maneira enviesada; não conversam, agridem; e terminam por “vencer” a discussão através da rotulação. Termos como “uzomista”, “feministo” ou “male tears” celebram não apenas a falta de argumentos, mas a própria incapacidade de dialogar. Crianças mimadas também se comportam assim: não podem se ver contrariadas sem baterem o pezinho.

A respeito do último ponto apresentado, isso serve não apenas na discussão acerca do feminismo, mas para todas as militâncias e mesmo para a vida pessoal. Ser proletário, por exemplo, não te coloca numa posição acima das críticas nem te fornece a iluminação para alguma verdade inacessível aos “mundanos” da política (digo isso como proletário e militante).

quinta-feira, 7 de agosto de 2014

Israel e Palestina: Guerra ou Massacre?

Gaza bombardeada

A lógica binária diz que quem ataca Israel defende o Hamas, e também o oposto. Com pessoas que pensam assim nem adianta tentar dialogar. Além disso, parece que cada um já escolheu seu lado para defender, tal qual escolhe times de futebol: Israel ou Palestina, e vai defende-lo não importa o que aconteça, independente dos fatos e notícias. Nada do que aconteça vai lhes fazer mudar de opinião. 

Vamos além disso. Aqueles que justificam a ação militar de Israel em Gaza tem utilizado um principal argumento: Israel só está se defendendo. Até 31 do mês passado a ONU havia divulgado os seguintes dados:

Há energia somente durante três horas por dia e o acesso à água e esgoto é precário ou inexistente em toda a Faixa de Gaza; 
A comida está escasseando e os preços inflacionando;
1.373 palestinos mortos, daqueles corpos identificados 252 são de crianças e 181 de mulheres e, no total, 83% são civis;
8.265 palestinos foram feridos, sendo 2.502 crianças e 1.626 mulheres;
Mais de um quarto da população de Gaza ou 457.000 pessoas, em sua maioria refugiados expulsos de onde hoje é Israel em 1948, foi deslocada de suas casas. 
Pelo menos, 303.000 crianças necessitam de atendimento psicossocial direto, urgente e especializado (trauma de guerra);
Cerca de 58.000 pessoas tiveram suas casas destruídas ou seriamente danificadas, além de 29.700 cujas casas foram danificadas, mas permanecem habitáveis;
Mais de 250.000 refugiados internos precisam de assistência alimentícia imediata;
137 escolas danificadas, várias inclusive servindo de abrigo emergencial;
24 hospitais e clínicas danificados;
25 ambulâncias da cruz vermelha foram atingidas, 
Equipes e bens e instalações humanitárias estão sendo atacados com frequência pelas forças israelenses; (fonte)

Hoje o saldo já passa dos 1.800 (cerca de 80% civis). E do outro lado? Do lado de Israel, apenas 58 pessoas morreram (até o dia 31), sendo delas somente dois civis, e não chega a uma centena o número de feridos. Por que esse ataque começou? Supostamente por causa do sequestro e assassinato de três (TRÊS) jovens judeus, pelo Hamas (Hamas não assumiu a autoria dos homicídios). Isso é o que o governo brasileiro chamou de “desproporcional”, sendo ironizado pelo Estado de Israel. Essa desproporção não é novidade: em 2006, um ataque de Israel matou cerca de 1.300 palestinos, e apenas 13 israelenses.

Sejamos sinceros: baseado nesses números, você realmente acredita que se trate de autodefesa? Como poderia ser justificável que, após o assassinato de três jovens, um Estado tivesse o direito de passar bombardeando casas com civis, milhares de pessoas que nenhum envolvimento tiveram com o caso? Israel também bombardeou escolas e um edifício da ONU onde se refugiavam mulheres e crianças. Como disse o jornalista Breno Altman, que é judeu, “nunca existiu autodefesa que justificasse mortes de mulheres, crianças e ataques a edifícios das Nações Unidas; o nome do que faz o governo de Israel é crime de guerra". (fonte)

Existe uma bateria de argumentos prontos e enlatados para a defesa ideológica de Israel. Como quando evocam os foguetes incessantes que Hamas envia à Israel, pondo-os em constante risco. Israel tem um dos melhores sistemas antimísseis do mundo (se não o melhor), e não, isso não justifica a barbárie e o massacre que Israel impõe à Palestina. Se a resposta de Israel fosse mesmo legítima, eles estariam atacando apenas os militantes do Hamas, e não civis aleatórios.

Mas eles alegam que antes de qualquer bombardeio Israel faz ligações avisando antes dos bombardeios; pedem para que desocupem os locais. Por que os palestinos permanecem sob o disparo dos mísseis, se são avisados? Será que ele gostam de morrer? Não, eles explicam que, mais uma vez o Hamas os obrigam a permanecer no local para que morram e possam assim se fazer de vítimas. Isso mesmo. Não é Israel quem está matando os palestinos, são eles mesmos quem estão se matando. Pra chamar a atenção internacional. Genial, não é mesmo?

Existem ainda outros argumentos para se defender o indefensável, neste caso, mas sejamos sinceros: Israel não está se defendendo. Então o que eles está fazendo?

Mapa revela ocupação de Israel sobre a Palestina
Uma rápida olhada no mapa da ocupação Israelense é muito reveladora. Desde a fundação de Israel pra cá, o país sionista tem rompido tratados e ocupado cada vez mais terras, reduzindo os territórios palestinos em pequenos guetos, cada vez menores, cercados por enormes muros, como enormes prisões ao céu aberto.

Israel está dizimando o Estado da Palestina, ou o que sobrou dele, eliminando palestinos fisicamente. Se Israel realmente estivesse interessado na paz, e não em varrer os palestinos da face da Terra, eles já teriam parado.

Se o problema de Israel é o Hamas e outros grupos terroristas, como pode que, com um exercito tão sofisticado e bem preparado, não ter dado um jeito neles, ainda? Israel não quer acabar com Hamas. Existe uma pressão internacional para que Israel chegue à um acordo com a Palestina. Como Israel não deseja coexistir com a Palestina, nem garantir a soberania da mesma, o Hamas fornece o pretexto perfeito para a não negociação (Benjamin Netanyahu afirmou que jamais negociaria com o Hamas) e para essas operações militares, sob o pretexto da autodefesa. Deixo aqui um trecho da matéria de José Antonio Lima:

O "corte de grama" é parte central do objetivo do governo de Netanyahu e da coalizão de direita e extrema-direita que ele lidera: manter o impasse atual para sempre, sem anexar por completo os territórios palestinos e, muito menos, sem contribuir para a criação de um Estado palestino. A intenção é antiga e antecede a chegada de Netanyahu ao poder. Como lembrou Mouin Rabbani em recente artigo no London Review of Books, em 2004, um ano antes de o governo de Ariel Sharon desocupar a Faixa de Gaza, Dov Weisglass, conselheiro do então premier, afirmou ao jornal Haaretz que o intuito da saída da Faixa de Gaza era "congelar o processo de paz". "Quando você congela esse processo, você previne o estabelecimento de um Estado palestino, e previne a discussão sobre os refugiados, as fronteiras e Jerusalém", afirmou Weisglass. "Efetivamente, todo este pacote chamado Estado palestino, com tudo o que ele implica, foi removido indefinidamente de nossa agenda". (fonte
Soldado israelense utilizando
 palestino como escudo humano
Em um telegrama enviado pela Embaixada dos EUA em Tel Aviv para Washington em 3 de novembro de 2008, vazado através do site Wikileaks, consta que “Autoridades israelenses confirmaram diversas vezes aos funcionários da Embaixada (dos EUA) que a intenção do governo de Israel é manter a economia de Gaza funcionando em nível precário, pouco acima de uma crise humanitária”. (fonte)

O bloqueio israelense a Gaza limita o acesso a alimentos, combustíveis e remédios aos palestinos, forçando infraestrutura local a operar no limite. “Para se ter ideia, o suprimento alimentar na região em agosto de 2009 era de 2.600 caminhões. Isso representava 20% do total de alimentos que entravam em Gaza em junho de 2007”.
O abastecimento de água e o saneamento também eram precários: cerca de 10 mil habitantes de Gaza não tem acesso à agua. Outros 60% da população não têm acesso diário, com fornecimento intermitente. Apenas 10% dos 1,8 milhões de habitantes em Gaza tem água de acordo com os padrões estabelecidos pela Organização Mundial de Saúde. Quando não são atacados militarmente, os palestinos estão sem água, sem luz e com fome: são economicamente estrangulados por Israel.
Efeitos do fósforo branco sobre a pele.
Utilizado por Israel contra civis palestinos
Documento secreto de 30 de julho de 2009 (mesma fonte) mostra que na Operação Chumbo Fundido (2008) o exército de Israel usou palestinos como escudos humano, e muito pior: usou bombas de fósforo branco contra a população civil.

Defender tais barbáries é inumano, e acusar aqueles que se opõe à tal brutalidade como “defensor de terroristas” é uma falácia imbecil da qual os pró-sionismo deviam nos poupar.

quinta-feira, 3 de julho de 2014

A Utopia Que Defendo

Arte urbana de Bansky
O "topia" vem do grego "τόπος" e significa "lugar". Utopia, não-lugar, lugar que não existe. A utopia é aquilo que não existe, e não necessariamente aquilo que não pode existir. As conquistas reais da humanidade foram, cada uma delas, utopias. Cada uma dessas conquistas foi idealizada antes de ser concretizada, e sendo assim, utopias são ideais, realidades idealizadas. Essas idealizações podem ser delirantes e impossíveis, ou podem ser realistas e viáveis. A utopia lúcida e concreta é vivida e praticada. Trata-se do exercício da transformação da realidade, e como disse Galeano, uma das condições para se transformar a realidade é conhecê-la. Essa transformação se dá pela organização da sociedade que é a política: o trabalho realizado na tensão entre a vontade e as possibilidades. Devemos nos perguntar o que queremos e, depois, como iremos consegui-lo.

Na minha utopia os direitos humanos são respeitados. Isso quer dizer: para TODOS os seres humanos. Nela, problemas sociais são resolvidos como problemas sociais, não como problemas morais. Nela, toda forma de tortura será banida. Na declaração universal dos direitos humanos consta: Todo indivíduo terá direito à vida, à liberdade e à segurança pessoal; Ninguém será mantido em escravatura ou em servidão; Ninguém será submetido a tortura nem a penas ou tratamentos cruéis, desumanos ou degradantes. Este é, em suma, a finalidade da utopia que defendo. Ela tem a felicidade como fim. E este fim tem um meio. 

Como a utopia que defendo pretende ser mais que um devaneio, é preciso garantir condições em que tais direitos sejam respeitados, e pra isso colocar o cidadão como sujeito participante das decisões políticas, e não somente uma massa passiva sem poder real. Por isso esta utopia humanista tem uma forma de governo: a democracia. A democracia é, por si só, uma utopia. Ela nunca existiu de verdade (senão como um processo). A palavra democracia, do grego, significa “poder do povo”. Nela o povo que detém o poder porque é ele quem, coletivamente, organiza sua forma de viver, sendo autor das leis e do todo o processo político. Em outra palavras, o poder pertenceria a toda sociedade. As democracias que tivemos até aqui, no entanto, não fizeram jus, verdadeiramente, à este conceito, apesar dos avanços que trouxeram. Tanto a democracia grega quanto a moderna foram formas de dominação de classe, na primeira dos senhores de escravos, e nesta, da minoria que detém do poder econômico, sendo a participação do povo reduzida à meras formalidades, sem poder realmente decidir sobre seu próprio destino e à merce da miséria e de outras formas de violência. Em suma, da violação de seus direitos básicos.

A sociedade em que vivemos apresenta desafios para a democracia: enquanto a legislação garante uma igualdade formal, vivemos num contexto e desigualdade real: a igualdade de todos perante a lei, por si só, não desfaz as desigualdades materiais. Portanto esta utopia democrática será impraticável enquanto reinar a desigualdade. Por que há desigualdade? Em tal sociedade regida pela racionalidade técnica do mercado o político é dominado pelo econômico, e a riqueza é distribuída de maneira desigual, gerando concentração e monopólio, e os direitos são convertidos em mercadorias, acessíveis apenas àqueles que podem comprá-las. Direitos básicos tais como saúde, moradia e educação passam a não ser acessíveis a todos, ou são de maneira precária. No capitalismo estes males são crônicos e sistêmicos, e por isso essa utopia democrática também uma forma de economia: o socialismo. Você sabe o que é socialismo? Trata-se da socialização dos meio de produção. Enquanto a propriedade privada dos meios de produção permite que o trabalho de uns enriqueçam a outros, a propriedade coletiva dos meio de produção deverá permitir que o lucro seja distribuído entre os trabalhadores. Isso requer tornar terras, empresas, bancos e tudo aquilo que gerasse lucro em propriedade coletiva para ser distribuído para os trabalhadores conforme seu trabalho e sua necessidade.

Mas o leitor poderá, e com alguma razão, acreditar essa utopia não passa de um delírio, visto que as experiências socialistas, quando não fracassaram, desembocaram numa tirania desembestada, não é isso? Bem, evidentemente, como a utopia que defendo se deseja mais que um delírio, isso também é levado em consideração. Em primeiro lugar é preciso tomar muito cuidado com as informações que temos desses países socialistas. Infelizmente, com uma imprensa que serve à interesses privados, muitas vezes nos dificultam a compreensão do todo que se passa nesses países, ressaltando os aspectos negativos, omitindo os positivos ou inventando histórias, mesmo. O processo político de cada um desses países é particular e muito mais complexo do que a imprensa oficial faz parecer. Isso não significa que sejam uma maravilha ou mesmo que correspondam à utopia que defendo, nem que necessariamente levem até ela.

Existem diferentes movimentos e correntes do socialismo que divergem em diferentes pontos a respeito de princípios ou estratégias para como se socializar os meios de produção. Alguns enfatizam que o povo deve se apropriar do Estado; outros querem aboli-lo de imediato, criando zonas liberadas, autogeridas; alguns acreditam na revolução armada, outros em reformas graduais, e assim por diante. Mas como a utopia que eu defendo é mesmo uma utopia, e na prática a teoria é outra, esta utopia rejeita fórmulas prontas e modelos pré-determinados de ação ou de sociedade. O caminho se constrói ao caminhar, através da práxis cotidiana, estratégica, que muda em cada contexto e agrega novos aprendizados. Por isso cada tentativa, que se deparou com novos e velhos desafios, foram experiências únicas, que podem ter tido resultados bons e ruins; desde a União Soviética até os territórios zapatistas em Chiapas. E como tal utopia é mais do que uma quimera, podemos observar fragmentos reais desta utopia sendo construídos efetivamente, hoje em dia, inclusive, como na cidade anarquista de Cristiania, na Dinamarca, que funciona sem o governo de representantes há mais de 20 anos. Toda a manutenção da cidade é decidido e feito a partir de reunião entre os moradores. Outro exemplo é a cidade de Marinaleda, na Espanha, cidade autogerida, verdadeiramente popular, onde a terra é de quem nela trabalha, que não conhece desemprego, não há polícia e as decisões são coletivas. Estes exemplos mostram que tal utopia socialista e democrática é possível, restando para os agentes da transformação o desafio de superar os novos e velhos desafios.

Mas é preciso compreender que a utopia que defendo é só uma utopia. Se argumentarem que este mundo que sonho onde não há violações de direitos humanos não é possível, porque as sociedades humanas são contraditórias e que sempre haverão conflitos, eu lhes responderia que isso não me interessa. A utopia é um ideal, e o real nunca é ideal. Não me interessa se vamos atingir este mundo; me interessa as possibilidades reis de transformação: a função da utopia é nos dar uma referência daquilo que queremos, nos orientar, e, baseando-se nela, poderemos tornar o mundo em que vivemos melhor do que ele já é. Haverão também aqueles que pensarão se tratar de pura perda de tempo. Esses tem seus próprios objetivos que dão sentido à vida, seja ascender profissionalmente; seguir uma vocação religiosa, ser um consumidor exemplar; para outros o que dá sentido à vida é lutar por um mundo melhor, nem que seja apenas para não ter que ficar passivo diante de uma realidade excludente e opressora.

quarta-feira, 28 de maio de 2014

O Que é Socialismo - Parte Três


Clique aqui para ler a primeira parte
E aqui para ler a segunda

Depois da morte de Marx, Engels concluiu o segundo e terceiro volume de O Capital que haviam ficado incompletos e confiou seus escritos e também os de Marx à Karl Kautsky (1854-1938), o homem que viria a terminar o quarto volume. Com o tempo, porém, Kautsky e outros teóricos, mais notadamente o alemão Berstein (1850-1932) criaram, a partir da teoria marxista, uma alternativa a estratégia revolucionária, sem ditadura do proletariado e com a amenização da luta de classes, através de sua conciliação, e uma progressiva participação do proletariado no governo burguês. 

Karl Kautsky
Rejeitando a ideia de revolução, de rompimento brusco, na socialdemocracia o socialismo poderia ser alcançado através de reformas progressivas impostas ao capitalismo. Seria ainda a humanização do capitalismo que levaria à uma transição pacífica ao socialismo. Sustentado por movimentos sociais, sobretudo sindicais, esta socialdemocracia europeia viria a propor o que mais tarde foi chamado de Estado de Bem-Estar Social, na qual o Estado interferia na economia de forma à regular o mercado. Este sistema econômico seria acompanhado de uma política democrática parlamentar com direito a eleições diretas.

Porém, voltemos um pouco no tempo. A socialdemocracia já existia antes de Berstein, sem o marxismo, com diferenças importantes. Marx os criticou numa ocasião de uma coalizão da burguesia francesa com os trabalhadores, em seu tempo. Engels se referiu a ela como “um segmento do partido democrata ou republicano mais ou menos impregnado de socialismo”. A “nova” socialdemocracia, marxista, estava tomando corpo significativo na Alemanha e Áustria, e Engels manteve relações com eles. Mais tarde, no século seguinte, haveria uma socialdemocracia mais à direita que visava a humanização do capitalismo como seu fim, desligando-se assim do socialismo (como no economista Keynes, que de marxista não tinha nada).

Os comunistas em geral rejeitaram o reformismo socialdemocrata, cunhando-lhe de “revisionismo”, o que se trataria de rever princípios e fundamentos do marxismo para lhe deturpar. Berstein, um dos líderes do Partido Socialdemocrata Alemão, fez sua produção teórica com a intenção de atualizar o marxismo.

Havia também um importante membro do Partido Socialdemocrata dos Trabalhadores Russos conhecido como o revolucionário Lênin (1870-1922), que abandonou o partido para se juntar aos comunistas, e travou uma violenta batalha contra a socialdemocracia e o tudo que ele considerasse como revisionismo. Para ele a socialdemocracia seria resultante da ideologia burguesa no proletariado para amenizar as contradições do capitalismo sem jamais resolvê-los, além de desmobilizar as massas. Apelidou-a de “social-chuvinismo”.

Em 1889 surgira no Congresso Internacional de Trabalhadores a Segunda Internacional Socialista com o mesmo objetivo da primeira, mas sendo mais uma associação livre de partidos, da qual predominava a socialdemocracia alemã. A presença dos anarquistas não era grande, para logo serem excluídos definitivamente. O “marxismo oficial” da Internacional foi definido principalmente por Kautsky e Plekhanov, marxista russo. Também participaram da Internacional revolucionários importantes, como Lênin e Rosa Luxemburgo (1871 – 1919), embora estes tenham-na abandonado, com Lênin declarando que “A Segunda Internacional está morta, vencida pelo oportunismo”. Acabou em 1914 com a Primeira Guerra Mundial.

Vladmir Lênin 
Naquela época o Império Russo era considerado a “África da Europa” marcado por um atraso social e econômico (praticamente feudal) em relação à Europa em geral no povo vivia em condições de grande miséria. Após crises violentas e conflitos entre o população e o czar (imperador) foram criados os sovietes, ou conselhos operários, que eram constituídos de trabalhadores com o propósito de organizá-los para a luta por seus direitos. Obtiveram poderes políticos e começaram a constituir exércitos próprios. Da crise geral em que se encontrava a Rússia nasceram diversos partidos e facções, entre eles os bolcheviques. Lênin era fundador e líder. Este último também fundou uma tendência política que mais tarde seria chamada de “leninismo” ou “marxismo-leninismo”.

Este partido foi o primeiro partido socialista com militantes profissionais e causou espanto ao permitir que um pequeno grupo de pessoas executasse tarefas num tempo em que apenas um grande número seria capaz anteriormente: era exigida uma severa disciplina e todo membro devia ser um militante ativo, numa ação de “vanguarda revolucionária”. Neste partido havia o princípio leninista do “centralismo democrático” que é centralista porque cada comitê possui um líder e o comitê central um líder supremo, mas é democrático porque todos participam das decisões: todos têm o direito de falar e até de criticar seus superiores, todas as opiniões são registradas e discutidas – ao menos em teoria. Outras tendências socialistas da época acusavam Lênin e os bolcheviques de quererem aplicar uma ditadura não do proletariado, mas sobre o proletariado, não de uma classe, mas de uma minoria, e que a ideia de um partido de vanguarda pretendia substituir o papel das massas.

O bolchevismo se considerava revolucionário por alegar que apenas uma tomada de poder armada seria capaz de por o proletariado no controle. No entanto havia um problema de natureza teórica e prática: a Rússia era um país atrasado e, sob a teoria de Marx, não tinha condições para o socialismo, não sendo industrializada. Para Marx o primeiro país a se tornar socialista provavelmente seria a Inglaterra, sendo o mais industrializado e de capitalismo mais avançado. Muitos marxistas acreditavam que a Rússia, antes de se tornar socialista, devia passar por uma revolução democrático-burguesa. Lênin acreditava que não: ele introduziu a ideia da revolução através do “elo mais fraco”. Elo mais fraco do capitalismo, a Rússia, de onde a revolução se espalharia pelo resto da Europa (ele acreditava que a revolução proletária só poderia durar na Rússia se expandisse, e estava convicto de que logo seria a vez da Alemanha, onde havia movimento socialista forte).

Lênin era um gênio de natureza prática e os acontecimentos que culminaram na Revolução Russa de 1917 levaram os bolcheviques ao poder, que fundaram a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, o primeiro Estado socialista. No próximo texto veremos o que foi que aconteceu lá e no socialismo no mundo.

terça-feira, 6 de maio de 2014

Linhas vermelhas na Ucrânia e em todos os lugares - Noam Chomsky


A crise atual na Ucrânia é séria e ameaçadora, tanto que alguns comentaristas a equiparam à crise dos mísseis em Cuba, em 1962. O colunista Thanassis Cambanis resume o âmago da questão no Boston Globe: “A anexação da Crimeia pelo (presidente russo Vladimir) Putin é uma ruptura de uma ordem em que os Estados Unidos e seus aliados confiam desde o fim da guerra fria, na qual as grandes potências só intervêm militarmente quando há consenso internacional a seu favor ou, na ausência dele, quando não cruzam as linhas vermelhas de uma potência rival”. 

Portanto, o crime internacional mais grave desta era, a invasão do Iraque pelos Estados Unidos e pelo Reino Unido, não foi uma ruptura da ordem mundial porque, apesar de não terem apoio internacional, os agressores não cruzaram as linhas vermelhas russas ou chinesas. 

Em contrapartida, a anexação russa da Crimeia e suas ambições na Ucrânia cruzam as linhas norte-americanas. Consequentemente, “Obama se concentra em isolar a Rússia de Putin, cortando seus laços econômicos e políticos com o mundo exterior, limitando suas ambições expansionistas em sua própria vizinhança e transformando o país, de fato, em um Estado pária”, informa Peter Baker no New York Times. 

Em suma, as linhas vermelhas norte-americanas estão firmemente estabelecidas nas fronteiras da Rússia. Consequentemente, as ambições russas “em sua própria vizinhança” violam a ordem mundial e criam uma crise. 

Esta premissa é de aplicação geral. Às vezes, permite que outros países tenham linhas vermelhas em suas fronteiras (onde também estão as linhas vermelhas dos Estados Unidos). Mas não se aplica ao Iraque, por exemplo. Nem ao Irã, que Washington ameaça continuamente com ataques (“nenhuma opção sai da mesa”). 

Tais ameaças violam não apenas a Carta das Nações Unidas, como também a resolução de condenação da Assembleia Geral à Rússia, que os Estados Unidos acabam de assinar. A resolução começa destacando que a Carta da ONU proíbe “a ameaça ou o uso da força” em assuntos internacionais. 

A crise dos mísseis em Cuba também deu ênfase às linhas vermelhas das grandes potências. O mundo perigosamente se aproximou de uma guerra nuclear quando o então presidente John F. Kennedy rechaçou a oferta do primeiro-ministro soviético Nikita Kruschov de colocar fim à crise mediante a retirada pública e simultânea dos mísseis soviéticos em Cuba e dos mísseis norte-americanos da Turquia (já estava programada a substituição dos mísseis dos Estados Unidos por submarinos Polaris, muito mais letais – parte do enorme sistema que ameaça destruir a Rússia). 

Também naquele caso, as linhas vermelhas dos Estados Unidos estavam na fronteira da Rússia, um fato aceito por todos os envolvidos. 

A invasão norte-americana da Indochina, como a do Iraque, não cruzou as linhas vermelhas, e tampouco muitas outras destruições norte-americanas pelo mundo. Deve-se repetir este fato crucial: às vezes, permite-se que outros adversários tenham linhas vermelhas, mas em suas fronteiras, onde também estão colocadas as linhas vermelhas norte-americanas. Se um adversário tem “ambições expansionistas em sua própria vizinhança” e cruza as linhas vermelhas norte-americanas, o mundo enfrenta uma crise. 

No último número da revista International Security, do Harvard-MIT, o professor Yuen Foong Khong, da Universidade de Oxford, explica que existe uma “longa (e bipartidarista) tradição no pensamento estratégico norte-americano: governos sucessivos colocaram ênfase no que é um interesse vital dos Estados Unidos, prevenir que uma hegemonia hostil domine alguma das principais regiões do planeta”. 

Além disso, existe consenso de que os Estados Unidos devem “manter sua predominância” porque “a hegemonia norte-americana é a que sustentou a paz e a estabilidade regional”, eufemismo que se refere à subordinação às demandas norte-americanas. 

Da forma como são as coisas, o mundo opina de modo diferente e considera os Estados Unidos um “Estado pária” e “a maior ameaça à paz mundial”, sem um competidor sequer próximo nas pesquisas. Mas, “o que o mundo sabe?”. 

O artículo de Khong se refere à crise provocada pela ascensão da China, que avança em direção à “primazia econômica” na Ásia e, assim como a Rússia, possui “ambições expansionistas em sua própria vizinhança”, cruzando as linhas vermelhas norte-americanas. A recente viagem do presidente Obama à Ásia tinha objetivo de reafirmar a “longa (e bipartidária) tradição”, na linguagem diplomática. 

A quase universal condenação de Putin pelo Ocidente faz referência ao “discurso emocional” em que o governante russo explicou com amargura que os Estados Unidos e seus aliados “nos enganaram uma e outra vez, tomaram decisões pelas nossas costas e nos apresentaram fatos consumados, com a expansão da OTAN no Oriente, com a instalação de infraestrutura militar em nossas fronteiras. Sempre nos dizem o mesmo: 'Bem, isto não tem a ver com você'”. 

As queixas de Putin se baseiam em fatos. Quando o presidente soviético Mikhail Gorbachev aceitou a unificação da Alemanha como parte da OTAN – concessão assombrosa à luz da história –, houve uma troca de concessões. Washington acordou que a OTAN não se direcionaria “um centímetro em direção ao Leste”, em referência à Alemanha Oriental. 

A promessa foi imediatamente quebrada e, quando o presidente soviético Mikhail Gorbachev se queixou, indicaram a ele que havia somente uma promessa verbal, carente de validade.

Logo Bill Clinton expandiu a OTAN muito mais ao Leste, em direção às fronteiras da Rússia. Atualmente, há quem queira levá-la até à mesma Ucrânia, bem dentro da “vizinhança” histórica da Rússia. Mas isso “não tem a ver” com os russos, porque a responsabilidade dos Estados Unidos de “manter a paz e a estabilidade” requer que suas linhas vermelhas estejam nas fronteiras russas. 

A anexação russa da Crimeia foi um ato ilegal, violou o direito internacional e tratados específicos. Não é fácil encontrar algo comparável nos últimos anos, mas a invasão do Iraque foi um crime muito mais grave.

Entretanto, vem à mente um exemplo parecido: o controle norte-americano da baía de Guantánamo, sudeste de Cuba. Ela foi tomada a tiros de Cuba em 1903 e não foi devolvida, apesar dos constantes pedidos cubanos desde o triunfo da revolução, em 1959. 

Sem dúvidas, a Rússia tem argumentos mais sólidos em seu favor. Ainda sem considerar o forte apoio internação à anexação, a Crimeia historicamente pertence à Rússia; conta com o único poto de águas quentes na Rússia e abriga a flotilha russa, além de ter enorme importância estratégica. Os Estados Unidos não têm nenhum direito sobre Guantánamo, a não ser pelo monopólio da força. 


Uma das razões por que Washington recusa devolver Guantánamo a Cuba, é possível presumir, é que se trata de um porto importante, e o controle norte-americano representa um formidável obstáculo ao desenvolvimento cubano. Esse tem sido o principal objetivo da política norte-americana ao longo de 50 anos, que inclui terrorismo em grande escala e guerra econômica.

Os Estados Unidos se dizem escandalizados pelas violações aos direitos humanos em Cuba, ignorando que as piores dessas violações são cometidas em Guantánamo; que as acusações válidas contra Cuba não se comparam nem de longe às práticas regulares entre os clientes latino-americanos de Washington; e, finalmente, que Cuba esteve submetida a um severo e implacável ataque dos Estados Unidos desde o triunfo de sua revolução. 

Mas nada disso cruza as linhas vermelhas de ninguém, nem causa uma crise. Cai na categoria das invasões norte-americanas da Indochina e do Iraque, da rotineira derrubada de regimes democráticos e das instalações de impiedosas ditaduras, assim como de nosso espantoso histórico de outros exercícios para “sustentar a paz e a estabilidade”. 
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Noam Chomsky é professor emérito de linguística e filosofia no Instituto Tecnológico de Massachusetts, em Cambridge. 
Tradução: Daniella Cambaúva
Fonte: Carta Maior

quinta-feira, 6 de março de 2014

Tá com peninha, leva pra casa. Tá com raivinha, mata.


"Que tempos são estes, em que temos que defender o óbvio?" - Bertold Brecht

No dia 26 de fevereiro um morador de rua foi espancado após furtar xampu em Sorocaba. O homem foi internado com afundamento no crânio. No dia anterior um carregador de caminhão, suspeito de roubar um celular é morto em Ribeirão Preto após receber um "mata-leão". Uma onde de violência contra criminosos e marginais passou e está passando pelo país aparentemente depois do caso do rapaz preso ao poste pela tranca da bicicleta, e talvez até mesmo pelo comentário de Rachel Sheherazade, que sem dúvida expressa a opinião de uma parcela considerável da população, mas que encoraja tais atos. "Justiça com as próprias mãos", é como chamam. Mas é justiça o que estão fazendo?

A democracia que defendo garante a todos o direito ao julgamento. Alguém poderia argumentar, como já fizeram "mas quando o bandido mata uma pessoa, essa pessoa não tem direito a julgamento". Se lhe ocorre tal raciocínio, certamente você não sabe o que é um julgamento ou para que serve. Será que é preciso demonstrar a necessidade de haver alguma distinção entre a lei e o crime? Já pensou se você é confundido com um ladrão e aparece um bando para fazer "justiça com as próprias mãos?", te espancam ou te matam? É pra isso que serve um julgamento: primeiro vão verificar se o acusado é mesmo o criminoso. O auxiliar de serviços gerais Marcelo Pereira da Silva, de 31 anos foi morto a tiros dia 28 do mês passado, em Vila Velha, ES, um dia depois de ter sido acusado de abusar de crianças. Mas era inocente. "Justiceiros" fazem esse tipo de coisa: a injustiça é intrínseca à modalidade da ação.

Mas isso não significa que a ação dos "justiceiros" teria sido justa acaso o criminoso fosse realmente culpado. Voltemos aos dois primeiros casos citados: um morreu por roubar um celular (se é que realmente foi ele) e o outro quase morreu (se é que não acabou morrendo depois) por causa de um xampu. Você realmente acha que todos os crimes mereçam a pena capital? Não seria adequado haver penas proporcionais aos crimes cometidos? Eis aí outra função do julgamento: decidir a pena, e as leis propõe penas diferentes para crimes diferentes. Em primeiro lugar, se todos os crimes tivessem a mesma pena, muito mais criminosos matariam. Por exemplo, se um assaltante pretendia roubar seu relógio, ele poderia achar melhor te matar também, pra você não dar queixa, afinal, a pena dele seria a mesma de qualquer forma. Não seria melhor evitar essa tragédia? Então pense nisso: a necessidade de penas proporcionais, coisa que os “justiceiros” nunca farão.

Mas quem mata tem que morrer também, não é? Mas será que esse ciclo de violência autoalimentada realmente pode diminuir a violência? Isso realmente diminui o crime? Resolveria o problema do crime agindo como se não houvesse lei? Quem dá aos “justiceiros” os instrumentos de decidir sobre a vida de alguém, podendo ser sobre a sua? Sem a lei, quem define quem é bandido e quem é o justiceiro? Já em Roma antiga Juvenal se perguntava “Quis custodiet ipsos custodes?” (Quem vigia os vigilantes?).

E você poderia me perguntar: “e se o bandido matasse alguém da sua família?”. Eu ficaria com muita raiva. E nesse caso, talvez até fizesse alguma bobagem, talvez até matasse. Faria isso porque, encolerizado, perderia a razão, e este é o ponto: as leis devem se basear na razão e não em emoções. O Estado democrático pretende que as instituições sejam reguladas por princípios racionais e, na medida do possível, longes das paixões do público. A busca por instituições assim nasceram de uma necessidade real, e significaram um avanço. Agora, se mesmo essas instituições falham nesse intento, porque é impossível ser realmente neutro e imparcial, quem dirá a multidão ensandecida?

A lei do talião já vigorou em praticamente todos os lugares durante milhares de anos. E adivinha só? Não funcionou. E não funciona. Não combate a criminalidade porque não atua na sua verdadeira origem, enquanto outras medidas, atuadas no sentido de reduzir a desigualdade e na garantia dos direitos básicos reduziram bastante a criminalidade, como no Estado de Bem Estar Social de alguns países nórdicos, pra dar um só exemplo. Não se esqueça, você ou alguém que você ama pode ser vítima desses atos de “justiçamento”. A única forma de garantirmos uma sociedade mais justa é lutando para garantir que todos tenham seus direitos garantidos. Todos! Assim, os criminosos devem responder pelos seus atos de maneira prevista na lei, e se você for acusado injustamente de algum crime, poderá ser protegido pela mesma lei. É por essa causa que devemos lutar: ela pode não satisfazer seus desejos sádicos de vingança, mas poderá garantir um país mais seguro e mais justo.

Charge de Felipe Attie

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Para compreender o que está se passando na Venezuela

Apoiadores do líder da oposição venezuelana, Leopoldo López, em protesto dia 20 de fevereiro
Seria pretensão achar que a reviravolta que está havendo na Venezuela pode ser compreendida de maneira imediata e cristalina. Embora os comentadores deem seu veredicto como se a verdade fosse evidente, há muitos fatos que passam despercebidos, e para mim também. Não quero ser mais um desses comentadores, mas já que não posso contemplar aqui todos os pontos de vista, darei minha interpretação dos fatos, que, pretendo, é o contraponto da versão “oficial”. 

1. Contextualizando

Uma revolução é quando o povo derruba pela força um governo ilegítimo, ou seja, que não o representava. Um golpe é quando uma minoria derruba pela força um governo, podendo este ser legítimo ou não. Os golpistas, entretanto, se dizem e muitas vezes se veem como revolucionários.

Nas Américas existe uma ordem econômica hegemônica. É hegemônica porque é dominante, mas seu domínio não é absoluto, existem outras ordens, existem resistências. Esta ordem hegemônica é imposta por países ricos e órgãos de crédito internacionais como FMI, Banco Mundial, etc, de maneira a promover vantagens comerciais para os mesmos. As resistências, aqueles que peitam o neoliberalismo, peitam as multinacionais e que protegem a soberania nacional, têm um preço a pagar.

Na Guatemala, por exemplo, em 1954, o governo dos EUA, através da CIA, ajudou a derrubar o governo eleito pelo povo pra implantar uma ditadura militar. Por quê? A principal razão era o fato do governo guatemalteco querer realizar uma reforma agrária, o que ia prejudicar empresas estadunidenses, entre elas a United Fruits CO. Por incrível que pareça, os Estados Unidos da América, “terra da liberdade”, contribuiu com a implantação de todas as ditaduras militares na América Latina do século passado, pelo menos depois da segunda guerra.

Monumento de Oscar Niemeyer
Muitos desses governos derrubados por golpes eram legítimos e contavam com apoio popular. Como então uma força externa pode derrubar um governo que, por sua vez, conta com apoio popular? Existe, dentro de cada país, um grupo de pessoas que será beneficiada com o golpe. Essa minoria tem dinheiro: são os donos de empresas, de bancos, de latifúndios, e tendo este poder, costumam possuir também os meios de comunicação e, de quebra, tem ao seu lado as forças armadas. Por quê? Porque eles têm uma ideologia, que é também a ideologia das forças armadas, e essa ideologia convence muitas pessoas que nem seriam beneficiados com o golpe, mas ficam achando que seriam. Essa ideologia faz o golpe parecer uma revolução e seu discurso faz a ditadura parecer uma garantia da democracia. 

Para se derrubar um governo existem várias táticas que a CIA promove metodicamente. No Chile, por exemplo, Salvador Allende venceu pelas urnas e em seu governo realizou-se uma rápida e pacífica reforma agrária, criou o maior conjunto de habitações da história, garantiu atendimentos médicos gratuitos, pleno emprego para todos os adultos e uma progressiva descentralização do poder através de assembleias populares, para enumerar apenas alguns de seus feitos.

O primeiro passo dos opositores foi a difamação. Criaram uma verdadeira campanha de notícias falsas sobre o governo Allende para denegrir sua imagem inclusive fora do país. Depois começaram as sabotagens à economia, o locaute (greve dos patrões) e, em seguida, o desabastecimento, desaparecimento de produtos de primeira necessidade. Os detentores dos meios de produção podiam fazer faltar tais produtos, como café, açúcar ou papel higiênico, para gerar um mal estar com relação ao governo e “provar” a incompetência do presidente, fazendo parecer que foi culpa de sua administração. Uma pergunta: porque esse tipo de coisa costuma acontecer só em governos ditos de esquerda? Porque a distribuição de renda mais igualitária prejudica precisamente aqueles que detinham a concentração, e são essas pessoas que têm poder pra realizar sabotagens deste tipo. Quando as coisas andam “normais”, com os ricos podendo permanecer ricos e os pobres, pobres, não há necessidade para tudo isso.

O caos social que se gera dá condições para depor o presidente. Mas o povo chileno estava com Allende: em 4 de setembro de 1973, quando meio milhão de chilenos marchavam nas ruas gritando: “Allende! Allende! El pueblo te defiende!” Não teve jeito. Uma fração insurreta do exército deu o golpe, tornando Pinochet o novo presidente e implantando um regime de terror, o mais sanguinário do século passado na América Latina.

2. Na Venezuela

Hugo Chavéz venceu eleições para presidente na Venezuela três vezes consecutivas, em eleições como as de qualquer país democrático. Teve uma distinção, porém: fez um governo para o povo pobre e proletário. Em seu governo, 43,2% do orçamento foi dedicado à políticas sociais, 20% só na educação (no Brasil é 8%). A taxa de mortalidade infantil caiu pela metade. O analfabetismo foi erradicado. O número de professores, multiplicado por cinco (de 65 mil a 350 mil). Para ampliar a participação popular na administração pública, em 1999 foi eleito por mais de 80% da população, através de um referendo, uma nova Constituição. As eleições na Venezuela só aconteciam a cada quatro anos, depois passou a ter mais de uma por ano, em condições de legalidade democrática, para que o povo pudesse votar não apenas nos representantes, mas também nas leis.

Por que, então, chamam-no ditador? Porque para realizar estas ações ele teve que recuperar a soberania nacional, e para isso nacionalizou o petróleo, peitou as multinacionais e as políticas econômicas neoliberais, avançou na reforma agrária. Tudo isso limita os lucros exorbitantes da burguesia nacional e reduz a fonte de lucro para a internacional. É por isso que o chamam ditador. Estranha ditadura que possui vários municípios e Estados governados pela oposição. Igualmente estranho uma ditadura na qual os donos da maioria dos meios de comunicação são contra o governo: 80% da imprensa escrita e também a maior parte da imprensa televisiva e radiofônica – estes usam a imprensa livre para dizer que não há liberdade de expressão. Chavéz não fechou um canal de TV? Não, ele apenas não renovou uma concessão de um canal que cometeu um crime. Que crime? Fomentou o golpe de estado de 2002.

Em 2002 e houve uma tentativa de golpe, que durou dois dias, mas a revolta da população fez devolverem o poder ao governo eleito. Eis o documentário a respeito: A Revolução Não Será Televisionada. No ano que seguiu houve locaute. E assim, várias revoltas das classes médias e altas para tentar desestabilizar o governo. As urnas estavam lá, esperando. No país há uma constituição que o governo segue à risca.

Panfleto da oposição violenta
(protestos de agora)
Em 2013 Hugo Chavéz morreu. Houve novas eleições, venceu Nicolás Maduro, do mesmo partido de Chavéz. Os descontentes provocaram uma onda de violência pelo país o que levou sete pessoas à morte e mais de 60 feridos. Foi incendiada a sede do PSUV (Partido Socialista Unido da Venezuela – de Chávez e Maduro) em dois Estados.

Este ano, mais uma vez na história, faltam produtos de primeira necessidade. Culpam a administração da economia. Se a economia da Venezuela vai mal, eu ignoro, muito sinceramente. Mas os números sociais continuam indo bem – Maduro pode não ser Chavéz, talvez não possua seu talento e nem sua liderança, mas procurou manter os avanços em prol do povo.

Semana passada o líder oposicionista Leopoldo Lopes convocou um protesto contra Maduro. Lopez não reconhece a legitimidade do governo de Maduro e seu discurso era de permanecer nas ruas até derrubar o presidente. A manifestação foi violenta, chegando os manifestantes a incendiarem o prédio do ministério público da Venezuela! Nesse caos houveram quatro mortes, das quais aconteceram em condições um tanto obscuras. (Seria fácil pra mim culpar a oposição, mas não quero ser leviano).

Depois disso o governo mandou prender Leopoldo Lopes. O fato foi noticiado por toda imprensa burguesa como prova da intolerância do governo, como se num país não houvessem leis. Maduro também expulsou três embaixadores estadunidenses, acusado-os de golpistas. Interessante que esses mesmos embaixadores se reuniram aos oposicionistas nas vésperas da manifestação. Já viram embaixadores estrangeiros organizando manifestação? Teriam sido expulsos de qualquer país do mundo.

O ressentimento gerado pela prisão de Lopez trouxera mais oposicionistas às ruas. Uma campanha de difamação foi criada: divulgaram notícias falsas de que iniciara uma guerra civil, algumas versões diziam que haviam milhares de mortos pela repressão do governo! O principal instrumento para a campanha de difamação foi a internet, onde utilizaram dezenas de imagens falsas e descontextualizadas, fotos de repressão em diversas partes do mundo, como se estivessem acontecendo naquele momento, e de outras manifestações massivas do passado como se fosse o povo nas ruas, exigindo liberdade. Veja as imagens desmentidas nesse link: Protestos na Venezuela: web é usada para difundir imagens falsas ou descontextualizadas

Felizmente aqueles que estão do lado de Maduro também realizaram uma manifestação massiva em favor do presidente. O governo venezuelano decidiu aumentar as suas reservas alimentares estratégicas depois desse período de escassez planejada e cria um conselho para combater sabotagens econômicas.

Já a nossa emissora de televisão rede Globo, uma das crias do regime militar instaurado no Brasil em 1964 (também com apoio dos EUA), nos trouxe as notícias de forma um tanto deturpadas. Ironicamente, a emissora permitiu este lindo debate: http://globotv.globo.com/globo-news/entre-aspas/v/especialistas-debatem-perspectivas-politicas-da-venezuela-apos-prisao-de-lider-da-oposicao/3157867/

O povo venezuelano no funeral de Hugo Chavéz