quarta-feira, 28 de maio de 2014

O Que é Socialismo - Parte Três


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Depois da morte de Marx, Engels concluiu o segundo e terceiro volume de O Capital que haviam ficado incompletos e confiou seus escritos e também os de Marx à Karl Kautsky (1854-1938), o homem que viria a terminar o quarto volume. Com o tempo, porém, Kautsky e outros teóricos, mais notadamente o alemão Berstein (1850-1932) criaram, a partir da teoria marxista, uma alternativa a estratégia revolucionária, sem ditadura do proletariado e com a amenização da luta de classes, através de sua conciliação, e uma progressiva participação do proletariado no governo burguês. 

Karl Kautsky
Rejeitando a ideia de revolução, de rompimento brusco, na socialdemocracia o socialismo poderia ser alcançado através de reformas progressivas impostas ao capitalismo. Seria ainda a humanização do capitalismo que levaria à uma transição pacífica ao socialismo. Sustentado por movimentos sociais, sobretudo sindicais, esta socialdemocracia europeia viria a propor o que mais tarde foi chamado de Estado de Bem-Estar Social, na qual o Estado interferia na economia de forma à regular o mercado. Este sistema econômico seria acompanhado de uma política democrática parlamentar com direito a eleições diretas.

Porém, voltemos um pouco no tempo. A socialdemocracia já existia antes de Berstein, sem o marxismo, com diferenças importantes. Marx os criticou numa ocasião de uma coalizão da burguesia francesa com os trabalhadores, em seu tempo. Engels se referiu a ela como “um segmento do partido democrata ou republicano mais ou menos impregnado de socialismo”. A “nova” socialdemocracia, marxista, estava tomando corpo significativo na Alemanha e Áustria, e Engels manteve relações com eles. Mais tarde, no século seguinte, haveria uma socialdemocracia mais à direita que visava a humanização do capitalismo como seu fim, desligando-se assim do socialismo (como no economista Keynes, que de marxista não tinha nada).

Os comunistas em geral rejeitaram o reformismo socialdemocrata, cunhando-lhe de “revisionismo”, o que se trataria de rever princípios e fundamentos do marxismo para lhe deturpar. Berstein, um dos líderes do Partido Socialdemocrata Alemão, fez sua produção teórica com a intenção de atualizar o marxismo.

Havia também um importante membro do Partido Socialdemocrata dos Trabalhadores Russos conhecido como o revolucionário Lênin (1870-1922), que abandonou o partido para se juntar aos comunistas, e travou uma violenta batalha contra a socialdemocracia e o tudo que ele considerasse como revisionismo. Para ele a socialdemocracia seria resultante da ideologia burguesa no proletariado para amenizar as contradições do capitalismo sem jamais resolvê-los, além de desmobilizar as massas. Apelidou-a de “social-chuvinismo”.

Em 1889 surgira no Congresso Internacional de Trabalhadores a Segunda Internacional Socialista com o mesmo objetivo da primeira, mas sendo mais uma associação livre de partidos, da qual predominava a socialdemocracia alemã. A presença dos anarquistas não era grande, para logo serem excluídos definitivamente. O “marxismo oficial” da Internacional foi definido principalmente por Kautsky e Plekhanov, marxista russo. Também participaram da Internacional revolucionários importantes, como Lênin e Rosa Luxemburgo (1871 – 1919), embora estes tenham-na abandonado, com Lênin declarando que “A Segunda Internacional está morta, vencida pelo oportunismo”. Acabou em 1914 com a Primeira Guerra Mundial.

Vladmir Lênin 
Naquela época o Império Russo era considerado a “África da Europa” marcado por um atraso social e econômico (praticamente feudal) em relação à Europa em geral no povo vivia em condições de grande miséria. Após crises violentas e conflitos entre o população e o czar (imperador) foram criados os sovietes, ou conselhos operários, que eram constituídos de trabalhadores com o propósito de organizá-los para a luta por seus direitos. Obtiveram poderes políticos e começaram a constituir exércitos próprios. Da crise geral em que se encontrava a Rússia nasceram diversos partidos e facções, entre eles os bolcheviques. Lênin era fundador e líder. Este último também fundou uma tendência política que mais tarde seria chamada de “leninismo” ou “marxismo-leninismo”.

Este partido foi o primeiro partido socialista com militantes profissionais e causou espanto ao permitir que um pequeno grupo de pessoas executasse tarefas num tempo em que apenas um grande número seria capaz anteriormente: era exigida uma severa disciplina e todo membro devia ser um militante ativo, numa ação de “vanguarda revolucionária”. Neste partido havia o princípio leninista do “centralismo democrático” que é centralista porque cada comitê possui um líder e o comitê central um líder supremo, mas é democrático porque todos participam das decisões: todos têm o direito de falar e até de criticar seus superiores, todas as opiniões são registradas e discutidas – ao menos em teoria. Outras tendências socialistas da época acusavam Lênin e os bolcheviques de quererem aplicar uma ditadura não do proletariado, mas sobre o proletariado, não de uma classe, mas de uma minoria, e que a ideia de um partido de vanguarda pretendia substituir o papel das massas.

O bolchevismo se considerava revolucionário por alegar que apenas uma tomada de poder armada seria capaz de por o proletariado no controle. No entanto havia um problema de natureza teórica e prática: a Rússia era um país atrasado e, sob a teoria de Marx, não tinha condições para o socialismo, não sendo industrializada. Para Marx o primeiro país a se tornar socialista provavelmente seria a Inglaterra, sendo o mais industrializado e de capitalismo mais avançado. Muitos marxistas acreditavam que a Rússia, antes de se tornar socialista, devia passar por uma revolução democrático-burguesa. Lênin acreditava que não: ele introduziu a ideia da revolução através do “elo mais fraco”. Elo mais fraco do capitalismo, a Rússia, de onde a revolução se espalharia pelo resto da Europa (ele acreditava que a revolução proletária só poderia durar na Rússia se expandisse, e estava convicto de que logo seria a vez da Alemanha, onde havia movimento socialista forte).

Lênin era um gênio de natureza prática e os acontecimentos que culminaram na Revolução Russa de 1917 levaram os bolcheviques ao poder, que fundaram a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, o primeiro Estado socialista. No próximo texto veremos o que foi que aconteceu lá e no socialismo no mundo.

3 comentários:

  1. Muito bom, ainda vão haver próximos textos?

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    1. Atualmente eu tenho estado sem tempo para escrever para o blog, e quando sobra tempo tenho utilizado para produzir alguns vídeos por acreditar que atinge mais pessoas. Então, por enquanto, não prometo nada. Muito obrigado e abraço!

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    2. Este comentário foi removido pelo autor.

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