quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Para compreender o que está se passando na Venezuela

Apoiadores do líder da oposição venezuelana, Leopoldo López, em protesto dia 20 de fevereiro
Seria pretensão achar que a reviravolta que está havendo na Venezuela pode ser compreendida de maneira imediata e cristalina. Embora os comentadores deem seu veredicto como se a verdade fosse evidente, há muitos fatos que passam despercebidos, e para mim também. Não quero ser mais um desses comentadores, mas já que não posso contemplar aqui todos os pontos de vista, darei minha interpretação dos fatos, que, pretendo, é o contraponto da versão “oficial”. 

1. Contextualizando

Uma revolução é quando o povo derruba pela força um governo ilegítimo, ou seja, que não o representava. Um golpe é quando uma minoria derruba pela força um governo, podendo este ser legítimo ou não. Os golpistas, entretanto, se dizem e muitas vezes se veem como revolucionários.

Nas Américas existe uma ordem econômica hegemônica. É hegemônica porque é dominante, mas seu domínio não é absoluto, existem outras ordens, existem resistências. Esta ordem hegemônica é imposta por países ricos e órgãos de crédito internacionais como FMI, Banco Mundial, etc, de maneira a promover vantagens comerciais para os mesmos. As resistências, aqueles que peitam o neoliberalismo, peitam as multinacionais e que protegem a soberania nacional, têm um preço a pagar.

Na Guatemala, por exemplo, em 1954, o governo dos EUA, através da CIA, ajudou a derrubar o governo eleito pelo povo pra implantar uma ditadura militar. Por quê? A principal razão era o fato do governo guatemalteco querer realizar uma reforma agrária, o que ia prejudicar empresas estadunidenses, entre elas a United Fruits CO. Por incrível que pareça, os Estados Unidos da América, “terra da liberdade”, contribuiu com a implantação de todas as ditaduras militares na América Latina do século passado, pelo menos depois da segunda guerra.

Monumento de Oscar Niemeyer
Muitos desses governos derrubados por golpes eram legítimos e contavam com apoio popular. Como então uma força externa pode derrubar um governo que, por sua vez, conta com apoio popular? Existe, dentro de cada país, um grupo de pessoas que será beneficiada com o golpe. Essa minoria tem dinheiro: são os donos de empresas, de bancos, de latifúndios, e tendo este poder, costumam possuir também os meios de comunicação e, de quebra, tem ao seu lado as forças armadas. Por quê? Porque eles têm uma ideologia, que é também a ideologia das forças armadas, e essa ideologia convence muitas pessoas que nem seriam beneficiados com o golpe, mas ficam achando que seriam. Essa ideologia faz o golpe parecer uma revolução e seu discurso faz a ditadura parecer uma garantia da democracia. 

Para se derrubar um governo existem várias táticas que a CIA promove metodicamente. No Chile, por exemplo, Salvador Allende venceu pelas urnas e em seu governo realizou-se uma rápida e pacífica reforma agrária, criou o maior conjunto de habitações da história, garantiu atendimentos médicos gratuitos, pleno emprego para todos os adultos e uma progressiva descentralização do poder através de assembleias populares, para enumerar apenas alguns de seus feitos.

O primeiro passo dos opositores foi a difamação. Criaram uma verdadeira campanha de notícias falsas sobre o governo Allende para denegrir sua imagem inclusive fora do país. Depois começaram as sabotagens à economia, o locaute (greve dos patrões) e, em seguida, o desabastecimento, desaparecimento de produtos de primeira necessidade. Os detentores dos meios de produção podiam fazer faltar tais produtos, como café, açúcar ou papel higiênico, para gerar um mal estar com relação ao governo e “provar” a incompetência do presidente, fazendo parecer que foi culpa de sua administração. Uma pergunta: porque esse tipo de coisa costuma acontecer só em governos ditos de esquerda? Porque a distribuição de renda mais igualitária prejudica precisamente aqueles que detinham a concentração, e são essas pessoas que têm poder pra realizar sabotagens deste tipo. Quando as coisas andam “normais”, com os ricos podendo permanecer ricos e os pobres, pobres, não há necessidade para tudo isso.

O caos social que se gera dá condições para depor o presidente. Mas o povo chileno estava com Allende: em 4 de setembro de 1973, quando meio milhão de chilenos marchavam nas ruas gritando: “Allende! Allende! El pueblo te defiende!” Não teve jeito. Uma fração insurreta do exército deu o golpe, tornando Pinochet o novo presidente e implantando um regime de terror, o mais sanguinário do século passado na América Latina.

2. Na Venezuela

Hugo Chavéz venceu eleições para presidente na Venezuela três vezes consecutivas, em eleições como as de qualquer país democrático. Teve uma distinção, porém: fez um governo para o povo pobre e proletário. Em seu governo, 43,2% do orçamento foi dedicado à políticas sociais, 20% só na educação (no Brasil é 8%). A taxa de mortalidade infantil caiu pela metade. O analfabetismo foi erradicado. O número de professores, multiplicado por cinco (de 65 mil a 350 mil). Para ampliar a participação popular na administração pública, em 1999 foi eleito por mais de 80% da população, através de um referendo, uma nova Constituição. As eleições na Venezuela só aconteciam a cada quatro anos, depois passou a ter mais de uma por ano, em condições de legalidade democrática, para que o povo pudesse votar não apenas nos representantes, mas também nas leis.

Por que, então, chamam-no ditador? Porque para realizar estas ações ele teve que recuperar a soberania nacional, e para isso nacionalizou o petróleo, peitou as multinacionais e as políticas econômicas neoliberais, avançou na reforma agrária. Tudo isso limita os lucros exorbitantes da burguesia nacional e reduz a fonte de lucro para a internacional. É por isso que o chamam ditador. Estranha ditadura que possui vários municípios e Estados governados pela oposição. Igualmente estranho uma ditadura na qual os donos da maioria dos meios de comunicação são contra o governo: 80% da imprensa escrita e também a maior parte da imprensa televisiva e radiofônica – estes usam a imprensa livre para dizer que não há liberdade de expressão. Chavéz não fechou um canal de TV? Não, ele apenas não renovou uma concessão de um canal que cometeu um crime. Que crime? Fomentou o golpe de estado de 2002.

Em 2002 e houve uma tentativa de golpe, que durou dois dias, mas a revolta da população fez devolverem o poder ao governo eleito. Eis o documentário a respeito: A Revolução Não Será Televisionada. No ano que seguiu houve locaute. E assim, várias revoltas das classes médias e altas para tentar desestabilizar o governo. As urnas estavam lá, esperando. No país há uma constituição que o governo segue à risca.

Panfleto da oposição violenta
(protestos de agora)
Em 2013 Hugo Chavéz morreu. Houve novas eleições, venceu Nicolás Maduro, do mesmo partido de Chavéz. Os descontentes provocaram uma onda de violência pelo país o que levou sete pessoas à morte e mais de 60 feridos. Foi incendiada a sede do PSUV (Partido Socialista Unido da Venezuela – de Chávez e Maduro) em dois Estados.

Este ano, mais uma vez na história, faltam produtos de primeira necessidade. Culpam a administração da economia. Se a economia da Venezuela vai mal, eu ignoro, muito sinceramente. Mas os números sociais continuam indo bem – Maduro pode não ser Chavéz, talvez não possua seu talento e nem sua liderança, mas procurou manter os avanços em prol do povo.

Semana passada o líder oposicionista Leopoldo Lopes convocou um protesto contra Maduro. Lopez não reconhece a legitimidade do governo de Maduro e seu discurso era de permanecer nas ruas até derrubar o presidente. A manifestação foi violenta, chegando os manifestantes a incendiarem o prédio do ministério público da Venezuela! Nesse caos houveram quatro mortes, das quais aconteceram em condições um tanto obscuras. (Seria fácil pra mim culpar a oposição, mas não quero ser leviano).

Depois disso o governo mandou prender Leopoldo Lopes. O fato foi noticiado por toda imprensa burguesa como prova da intolerância do governo, como se num país não houvessem leis. Maduro também expulsou três embaixadores estadunidenses, acusado-os de golpistas. Interessante que esses mesmos embaixadores se reuniram aos oposicionistas nas vésperas da manifestação. Já viram embaixadores estrangeiros organizando manifestação? Teriam sido expulsos de qualquer país do mundo.

O ressentimento gerado pela prisão de Lopez trouxera mais oposicionistas às ruas. Uma campanha de difamação foi criada: divulgaram notícias falsas de que iniciara uma guerra civil, algumas versões diziam que haviam milhares de mortos pela repressão do governo! O principal instrumento para a campanha de difamação foi a internet, onde utilizaram dezenas de imagens falsas e descontextualizadas, fotos de repressão em diversas partes do mundo, como se estivessem acontecendo naquele momento, e de outras manifestações massivas do passado como se fosse o povo nas ruas, exigindo liberdade. Veja as imagens desmentidas nesse link: Protestos na Venezuela: web é usada para difundir imagens falsas ou descontextualizadas

Felizmente aqueles que estão do lado de Maduro também realizaram uma manifestação massiva em favor do presidente. O governo venezuelano decidiu aumentar as suas reservas alimentares estratégicas depois desse período de escassez planejada e cria um conselho para combater sabotagens econômicas.

Já a nossa emissora de televisão rede Globo, uma das crias do regime militar instaurado no Brasil em 1964 (também com apoio dos EUA), nos trouxe as notícias de forma um tanto deturpadas. Ironicamente, a emissora permitiu este lindo debate: http://globotv.globo.com/globo-news/entre-aspas/v/especialistas-debatem-perspectivas-politicas-da-venezuela-apos-prisao-de-lider-da-oposicao/3157867/

O povo venezuelano no funeral de Hugo Chavéz

Nenhum comentário:

Postar um comentário