domingo, 26 de janeiro de 2014

O Que é Socialismo - Parte Dois

Clique aqui para ler a primeira parte

O Quarto Estado - Pelizza da Volpedo

Tornar terras, empresas, bancos e tudo aquilo que gerasse lucro em propriedade coletiva para ser distribuído para os trabalhadores conforme seu trabalho e sua necessidade, garantindo condições igualitárias, direitos básicos e participação política. A questão era como.

O próprio anarquismo ramificou-se em diversas tendências. Sob a inspiração das ideias de Proudhon criou-se o Mutualismo na França, que atuavam em associações operárias e chegaram a propor um banco de crédito comum. Os mutualistas eram reformistas e não se abstinham do voto, mas tal tendência perdera expressão a partir da segunda metade do século XIX. Os partidários de Leon Tolstoi criaram aquilo que pode ser chamado de Anarquismo Cristão, que recusando-se a servir a qualquer governo, mas de maneira absolutamente pacifista, legou a desobediência pacifica como arma que viria influenciar o próprio Mahatma Gandhi.

Mikhail Bakunin
Uma figura de vulto igual ou maior que Proudhon e extremamente influente foi Mikhail Bakunin, com seu Coletivismo, no qual a revolução seria feita por levantes espontâneos e contínuos das massas, que culminariam numa insurreição generalizada. As comunas autogeridas daí resultantes formariam federações regionais, nacionais e internacionais. Acreditava que seu socialismo libertário viria com o aniquilamento violento da sociedade atual, alegando que o impulso destruidor era também impulso criador. Sequer esboçou um projeto de nova sociedade, pois esta seria criação das massas. Para Bakunin a tentativa de uma ditadura do proletariado tornar-se-ia inevitavelmente uma nova dominação de classe, e também acreditava que o proletariado não deveria constituir um partido político independente, e sim ser independente de qualquer partido e derrubar a ordem existente através de ações diretas.

Também na Rússia surgia o Anarco-comunismo, ou Comunismo Libertário, inspirado em Kropotkin. Este russo acreditava que a solução para a opressão do capital estaria em substituir o pagamento pelo trabalho (salário) pela necessidade do trabalhador, só que cada trabalhador decidiria suas próprias necessidades e se serviriam livremente em armazéns comunais. Pois acreditava que depois que o poder político e a exploração fossem eliminados, todos trabalhariam voluntariamente e se serviriam apenas do necessário, bastando, em alguns casos, uma pressão moral. Para a transformação da sociedade, Kropotkin desaconselhava o uso da violência, necessária somente em último caso, e pregava ações políticas com o mínimo de desordem possível. Enquanto Bakunin ressaltava o aspecto destrutivo do anarquismo, Kropotkin ressaltava o aspecto construtivo. 

A expressão mais massiva do anarquismo no século XIX foi o Anarco-sindicalismo, para quem a greve era o instrumento principal para a revolução. Dois nomes importantes foram Malatesta e Buenaventura Durruti. No século seguinte os anarco-sindicalistas criaram a Confederação Nacional do Trabalho, na Espanha, que foi a maior organização anarquista que já existiu.

Existiu também o Anarco-individualismo, inspirado no alemão Max Stirner, cujo ideal egoísta pregava absoluta soberania e cujo socialismo era para ele uma “união de egoístas” sem normas ou regras, mas com um interesse comum. Mais tarde as tendências mais individualistas do anarquismo encontraram como meio de ação política as ações individuais, como a propaganda pelo ato e o terrorismo.

Marx na Internacional
Em 1864 foi formada a Internacional Socialista (Associação Internacional dos Trabalhadores), visando integrar estes diversos movimentos socialistas, e contou com Karl Marx na sua fundação e direção, entre outros. Nesta federação houve um grande embate entre comunistas e anarquistas, sobretudo os representados por Marx e Bakunin.

Marx considerava Bakunin um aventureirista e inconsequente de maneira típica aos intelectuais pequeno-burgueses irritados com a burguesia que tinha cada vez mais poder através do Estado, e então viam o problema justamente no Estado, querendo negá-lo sob qualquer forma. Para eles era possível abolir as classes através da abolição do Estado, enquanto para Marx, o Estado só poderia ser abolido com a abolição das classes. Marx alegou que Bakunin não entendia nada de revolução social e que ignorava os pré-requisitos econômicos necessários, pois a revolução não dependia somente da vontade dos indivíduos.

O anarquismo volta-se contra o leviatã da sociedade moderna e centralizadora do poder. Para ele nenhum governo pode ser revolucionário. Neste embate as diferenças não eram apenas sobre a estratégia para a revolução, mas também sobre a organização da própria Internacional. Bakunin acusava violentamente o Conselho Geral de autoritarismo. E acabou ganhando muitos adeptos. 

Para defender-se, Marx contribuiu significativamente com a expulsão de Bakunin, acusando-o de manter uma sociedade secreta com o objetivo de desunir a Internacional, uma espécie de conspiração. De fato, Bakunin fundou inúmeras sociedades secretas pela Europa em toda sua trajetória política. Só que com sua expulsão a Internacional foi dividida de vez, e acabou se extinguindo nos anos seguintes.

Em 1871 houve a Comuna de Paris, a primeira revolução socialista, que transformara a cidade francesa num governo socialista independente, para ser esmagada após dois meses. Teve uma orientação predominantemente anarquista, sem líderes e carecia de um programa coerente e bem estruturado. Um terço dos membros eleitos para o novo governo era ativista da Internacional Socialista. Marx, apesar de ter criticado desde o início a falta de organização, viu a comuna com entusiasmo e deu seu apoio e entendeu-a como uma importante experiência. O fracasso da Comuna fortaleceu, no movimento operário, a concepção de necessidade de uma ditadura do proletariado.

Mas o comunismo também se dividiu em diferentes concepções e provocou diversas brigas internas e com consequências importantes que viriam mudar todo o planeta. No próximo texto falaremos sobre estas tendências e suas consequências.

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