quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

O Mito da "Educação é a Solução"

Só investir na escola basta?

É notável a frequência com a qual a educação é evocada como solução para todos os problemas do país. "- O que o governo devia fazer resolver o problema da miséria/fome/racismo/subdesenvolvimento/etc? - Investir na educação!" É a resposta do senso comum, reproduzido por todas as classes e sobretudo por políticos como argumentum ad populum. Sua lógica é perfeitamente compreensível - mas é falaciosa, como pretendo demonstrar.

Me motivou a escrever uma discussão com uma amiga que se viu concordando com o Lobão quando este afirmou que o fato de parte da população ter saído da miséria não significava, necessariamente, um avanço. Minha amiga falou que concorda com a colocação do Lobão, e acredito que ela pense, por sua vez, que o problema está no fato desta ascensão social não estar assegurada, uma vez que as medidas de assistencialismo teriam efeitos efêmeros. Eu perguntei à ela: "o que você acha que o governo deveria fazer?" Adivinha o que ela respondeu!

Bem, sobre a efetividade do assistencialismo eu vou deixar pra discutir noutro texto, pois este tema merece atenção especial e existem sim críticas justas à ele. À minha amiga expliquei algo que supus irônico: o governo que ela criticava e era contra - o PT - foi o que mais investiu em educação desde, pelo menos, a redemocratização. E não precisa ser petista pra reconhecer. Mas eu devia ter respondido mesmo o seguinte - as boas respostas só pensamos depois - "Que educação você sugere para aqueles que estão na miséria? Qual o método de alfabetização você acha mais adequado à quem passa fome? Que tipo de educação é melhor pra quem está desabrigado? Oras, estou certo de que se fosse você a sair da miséria, você pensaria diferente!" 

E dizendo isso, pretenderia deixar claro que que é ingenuidade achar que a educação pode, sozinha, realizar alguma transformação. É certo que sem a educação nada se transforma, mas sozinha, ela nada pode. É estatístico: as escolas das periferias costumam ter um rendimento inferior às de bairros mais abastados. Não é atoa: quanto mais dura é a vida da criança, mais dificuldade elas costumam ter, sobretudo quando estão em alguma situação de risco ou socialmente vulneráveis, muitas vezes expostas à violência. Imagine quem está na miséria! Já fui professor, já vi aluno com fome. É lógico que não aprende nada, existem crianças que vão à escola pelo lanche. Outras tantas se veem obrigadas a trabalhar, e a maioria das crianças pobres simplesmente não se interessam pelos conteúdos porque não veem utilidade nem vislumbram algum futuro. Adultos também tem dificuldade de se instruírem, sobretudo os que trabalham o dia inteiro um trabalho que os desgasta, fazendo com que, no tempo livre, queria apenas descansar.

O que há por trás desse mito da educação é uma ideologia que diz que todos temos as mesmas chances. As portas estão todas abertas, basta você se esforçar. Ou bastaria que as pessoas fossem instruídas a ponto de saberem aproveitar as oportunidades. Ou bastariam ter algum qualificação profissional, pois há empregos descentes para todos.Educando a todos, todos teriam seu espaço. É a ideologia que nasce com o advento da igualdade jurídica, e que justifica o status quo, pois costuma culpar os indivíduos pela sua própria derrota. 

Este mito é antigo: com a expansão do capitalismo surgia a necessidade de mão de obra para as novas e gigantescas forças produtivas que mudariam a face da Terra. É nesta época que os entusiastas do liberalismo começam a defender uma educação pública e gratuita para o povo, e quando os governos começaram a colocar o sonho em prática, as escolas focavam excessivamente na disciplina, disciplina que passou a ser necessária nas fábricas. Desde então a educação passou a ser considerado o elemento mágico do progresso. Mesmo no início do século passado a Teoria do Capital Humano pregava que a educação de cada país era o fator decisivo para seu desenvolvimento econômico. Tal teoria caiu em descrédito na segunda metade do século.

Voltemos para o senso comum hodierno: diante da miséria e da fome ele sempre diz: "é preciso ensinar a pescar ao invés de dar o peixe". Parece não compreender que se você não der o peixe para algumas pessoas, elas podem morrer de fome antes de terem tempo de aprender a pescar.

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Nota: espero que aqueles leitores mais atrasadinhos tenham notado que este texto não desqualifica nem ignora a importância da educação, pois o autor considera a educação um dos pontos mais cruciais tanto para a melhoria das condições do povo quanto para a própria emancipação humana, e isso engloba a educação formal e a educação em sentido amplo. A educação é, em si, um ato político.

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