quarta-feira, 11 de setembro de 2013

O 11 de Setembro Chileno

Hoje faz 40 anos que a emancipação do proletariado chileno foi violentamente interrompida para dar lugar à um dos mais sangrentos regimes da amárica latina do século XX. Conto aqui um dos lados dessa história: o lado dos trabalhadores e revolucionários.

Salvador Allende
1. O Poder Popular

Em 1970 o Chile começou uma experiência única que é lembrada como a “via chilena”: uma transição pacífica para o socialismo. O presidente socialista Salvador Allende conseguiu conduzir por meio “legal” uma transformação quase tão profunda quanto a da revolução cubana. No Chile, além do proletário urbano e rural, sofria os índios mapuche, desapropriadas suas terras por latifundiários e vivendo como sem-terras ou indigentes a margem da sociedade.

Muita expressividade ganhara a causa dos trabalhadores das minas no Chile, fonte de três quartos dos lucros das exportações do país, entregues à multinacionais norte-americanas que submetiam os trabalhadores a condições insalubres de trabalho por salários miseráveis. As greves eram violentamente reprimidas pelo exército e pelos empresários.

Salvador Allende, que venceu nas urnas pelo voto, acreditando na possibilidade de uma revolução pacífica, demonstra-se um brilhante negociador ao conseguir grandes transformações através das “vias legais”. Mas a revolução “pacífica” não se deu apenas assim: havia uma militância de base muito mais combativa que ocupava terras e fábricas neste meio tempo.

No início diversos setores da esquerda, em especial os comunistas, desacreditaram Allende, este “reformista”. A mídia burguesa e toda a direita faziam sua campanha de difamação, alegando que se ele fosse eleito implantaria uma ditadura sangrenta e as crianças chilenas seriam levadas para Cuba. Mas a maioria do povo confiava nele, assim como a maior parte da esquerda em geral. Ele realizou uma coalizão dos partidos de centro e de esquerda, formando a Unidade Popular, com ele próprio na liderança.

Quando ele venceu as eleições, os comunistas decidiram não atacá-lo, integrando as ações legais com as clandestinas. Em menos de três anos o governo comprou as empresas estrangeiras que trabalhavam nas minas e passou a controlar quase todos os bancos privados, pequeno grupo que controlava a economia do Chile. As empresas monopolizadoras também haviam sido estatizadas. Com a ajuda dos camponeses e moradores das favelas realizaram a mais rápida e extensa reforma agrária não violenta. As terras expropriadas foram entregues aos camponeses que nelas trabalhavam sob forma de cooperativas, e não como propriedade privada, e além disso o governo comprou maquinário agrícola, sementes e fertilizantes. O salário rural médio aumentou 75%, e fora a primeira vez que o governo dava ajuda aos mapuche.

Criou programas de auxilio aos pobres e melhorou o padrão de vida da população: criou o maior conjunto de habitações da história, garantiu atendimentos médicos gratuitos, pleno emprego para todos os adultos e meio litro de leite por dia para cada criança chilena. Também iniciou uma progressiva descentralização do poder através de assembleias populares e incorporando a participação dos trabalhadores à administração das empresas e da população em outras associações.

Como Allende prometeu não usar o exército contra povo, este último sentiu-se confiante para levar em frente sua própria revolução, e camponeses e índios mapuche seguiram invadindo terras, o que forçou o governo a acelerar a reforma agrária. Estas ações “ilegais” podiam preencher as “lacunas” que a revolução legalista de Allende não podiam alcançar.

As fábricas que negavam direitos aos seus trabalhadores também foram tomadas, como o exemplo da maior fábrica têxtil de algodão do Chile do proprietário Yarur que desrespeitava as lideranças sindicais. O resultado foi que os trabalhadores fecharam a fábrica até que o governo a estatizasse. Estatizada, a ex-Yarur (como ficou conhecida) passou a ser controlada pelos próprios trabalhadores, e sua produção só aumentou, e os salários aumentaram mais de 50%! Na entrada, colocaram um cartaz: “Território livre de exploração”. A fábrica tornara-se uma comunidade onde os trabalhadores organizavam grupos culturais e esportivos e cursos especiais para aprimorarem seus trabalhos, e até levavam suas famílias em comemorações, como o “dia da libertação”, a data em que ocuparam a fábrica (28 de abril).

Augusto Pinochet
2. A contra-revolução 

Mas desde antes de sua vitória no congresso, o presidente dos Estados Unidos Richard Nixon já havia declarado que não permitiria que Allende vencesse, e se vencesse, que permanecesse no poder. Primeiro financiou a campanha de seus opositores, e depois que ele venceu promoveu um embargo comercial não declarado e diversos agentes da CIA dentro do exército tentaram de todas as maneiras fomentar um golpe militar. Como as forças armadas eram lideradas pelo general René Schneider, fiel a Allende, eles tiveram que matá-lo.

O embargo comercial negava ao Chile empréstimos, créditos bancários, peças de reposição e matéria-prima, ou qualquer tipo de ajuda do resto do mundo. Isso levou a uma falta de bens de consumo e de suprimentos em geral que desestabilizou severamente a economia do país e prejudicou o povo.

Aos poucos uma guerra civil não declarada começava a tomar as ruas, desta vez iniciada pela burguesia. A Greve de Outubro foi uma greve dos patrões, que dispensaram seus trabalhadores juntamente com uma paralisação da classe média contra-revolucionária a fim de desestabilizar a economia, disseminar o caos e criar condições para depor Allende. Sabotagens à produção começaram a partir de todos os lados e as disputas ficavam cada vez mais violentas. Grupos paramilitares começavam a bloquear as ruas com barricadas em chamas e produzir confrontos com os estudantes.

Diante disso Allende tentara acalmar os ânimos da direita: começou a dar concessões à burguesia, como prometer desacelerar as expropriações, neutralizar a “revolução vinda de baixo” ou seja, as ações “ilegais”, entre outras. Era uma tentativa de ganhar a classe média e evitar uma guerra ou um golpe militar. Uma das medidas (provavelmente a mais catastrófica) foi a Lei das Armas, que dava o direito de usar armas exclusivamente ao exército e o direito à este de buscar armas clandestinas. Isso se deu talvez porque Allende confiasse demasiado na lealdade do exército, talvez porque não confiasse suficientemente no povo, mas em conseqüência grupos militares começaram invadir fábricas, fazendas, universidades e favelas e a espancar e torturar o povo, uma prévia para o golpe.

Os trabalhadores das fábricas estatais produziam ao máximo estoques de mantimentos para o povo, e as pessoas resistiam como podiam aos ataques de grupos militares da burguesia e de neofascistas. Quando tentaram tomar ex-Yarur, os trabalhadores resistiram com lanças de madeira feita por eles. Mas pouco a pouco os militares tomavam conta do Chile. Ainda assim, o povo era fiel ao seu presidente, como ficou demonstrado em 4 de setembro de 1973, quando meio milhão de chilenos marchavam nas ruas gritando: “Allende! Allende! El pueblo te defiende!”

Em 11 de setembro de 1973 o general Augusto Pinochet lidera um golpe militar que daria um fim violento à revolução pacífica. O prédio presidencial estava sendo atacado pelas forças armadas, resistindo com um pequeno grupo de seguranças pessoais. Antes de morrer Allende fez um último pronunciamento ao povo pelo rádio, avisando que estava sob ataque, acusando os líderes do golpe de traição e falsidade, que tinha fé no povo do Chile e que não iria renunciar, terminando com “Viva o Chile! Viva o povo! Viva os Trabalhadores!” A notícia oficial diz que ele teria se suicidado diante da invasão dos militares, mas ele pode simplesmente ter sido assassinado.

Depois do golpe Pinochet anunciara na televisão que havia salvado o Chile e que extirparia o “câncer do comunismo” do país. Reverteu todas as transformações de seu governo, impondo ainda um reinado de terror fascista, levando à morte mais de três mil chilenos e prendeu cerca de cem mil, muitos dos quais foram torturados. Comunistas, socialistas, sindicalistas e movimentos populares foram brutalmente esmagados através de fuzilamentos públicos nas ruas e em estádios de futebol, e submetidos à torturas brutais, como é próprio dos regimes militares. Foram descobertas mais de mil câmaras de tortura secretas do governo Pinochet. Entre suas vítimas mais famosas estão o músico Victor Jara e o prêmio Nobel Pablo Neruda. Nem os índios forma poupadas da brutalidade, sendo novamente expropriados, perseguidos e torturados, reduzidos a miséria mais uma vez.

Seu regime coordenaria a Operação Condor que unia as ditaduras do Chile, Brasil, Uruguai e Paraguai para aumentar o raio de repressão a todos os revolucionários. Assim eles exterminaram os partidos políticos de esquerda e os sindicatos, o “poder popular” dos trabalhadores e camponeses. Privatizou não só as empresas estatizadas na era Allende, mas praticamente todas (exceto as das minas), colocando até mesmo os serviços sociais em mãos de empresas capitalistas. Os preços dos produtos subiram, os salários caíram, levando muitos trabalhadores à uma dieta de pão, chás e cebolas. Pinochet permaneceu no poder por 16 anos, querendo ainda, diante da insatisfação do povo, promover um novo golpe, rejeitado até mesmo pelo próprio restante do exército.

Este é um exemplo do que acontece quando os "defensores da democracia" (democracia burguesa) se sentem prejudicados mesmo dentro da legalidade estabelecida por eles. Nos ensina que onde quer que o povo tenha condições de se emancipar economicamente, ele deve estar preparado militarmente para enfrentar as consequências.

(A principal referencia utilizada para escrever este texto foi o livro “A Revolução Chilena” de Peter Winn)

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