terça-feira, 14 de maio de 2013

Os Brados da Classe Média



Ideias retrógradas circulam as mídias, todas, inclusive as redes sociais. Elas são produzidas massivamente por diversos grupos, mas tem um que é principal. Coisas como exigência de pena de morte, redução da maioridade penal, atacar políticas públicas com jargões infames como “sustentar vagabundo”, comparar o teto do auxílio reclusão com o salário mínimo, ou chamar um programa social que auxilia viciados de “bolsa crack”, como se fosse uma recompensa pelo indivíduo ter agido “fora da lei”. 

Antes de tudo uma importante distinção: classe média como categoria econômica e classe média como “ideologia de classe média”, também chamada “ideologia pequeno-burguesa”. A maioria das pessoas de classe média compartilha certas ideias típicas (a maioria, não todas). Mas porque mais da metade deste grupo, definido por uma posição econômica, tem as mesmas ideias? Seria porque consomem os mesmos meios de comunicação? Também, mas há uma razão mais importante. 


Estas pessoas, estando numa situação financeira semelhante, se deparam todos com problemas semelhantes, e lhes ocorrem determinadas soluções semelhantes. Soluções simplistas, que não superam a superfície rasa do senso comum, coisa de quem contempla somente as aparências e não tem visão do todo, e que é, portanto, o que podem enxergar da posição de onde se encontram. Daí uma convicção muitas vezes absoluta: o pensamento aparece como verdade óbvia e inegável. 


Tudo que a classe média quer é ascender à classe alta. Ela não se identifica, nem quer se identificar, com a classe baixa. Ser pobre é que mais lhe dá pavor, especialmente porque o risco existe. E por que não podem tornar-se ricos, tal como fazem os ricos? Bem, se eles querem ser ricos como os ricos, não podem culpar o mercado, muito menos o capital. A ideia de que o mercado só dá espaço para poucos está descartada, porque isso soa como uma denuncia ao sistema e eles querem ser um desses poucos. 


A culpa então recai quase integralmente sobre o governo, pois é ao governo que vai parte da sua verba, muitas vezes suada, através dos impostos. É o governo, portanto, que não deixa enriquecer. Mas eles não ligariam se o governo usasse essa grana para facilitar-lhes o acesso ao jogo do livre-mercado: de fato eles jamais reclamaram do governo fazê-lo. Para eles há duas formas de queimar o dinheiro publico: roubando diretamente, ou usando-o em políticas públicas que beneficiem, mesmo que de maneira superficial, os pobres. Esse discurso é proveniente apenas do senso comum, jamais, da realidade. É a reprodução acrítica de velhas ideias rancorosas. 


Porque pra eles, todos tem chance de trabalhar e viver dignamente. Por que pensam assim? Porque eles tiveram chance. E acham que é igual pra todos, pro peão, pro sem-terra, pro favelado e pro mendigo também. O cidadão típico de classe média não suspeita que ele é um privilegiado. Para ele ter direitos e deveres nada tem a ver em ajudar os necessitados: ele quer só direitos, não quer deveres; e é exatamente isso que ele pensa daquele que precisa de ajuda: pensa que o pobre e/ou marginalizado só quer direitos, não deveres, apesar deles viverem em condições muito piores. 


O dever do Estado deveria justamente ser o de regular certas relações sociais em benefício dos necessitados, oferecendo condições básicas a todos. Mas para o alienado médio não. Não vemos esses indivíduos reclamando, de maneira alguma, dos investimentos que o governo faz aos milionários, por que ele está “investindo no progresso” como financiamentos de milhões e milhões que o governo faz aos bancos, ao latifúndio, às multinacionais. Tudo certo. Revoltante é quando ele investe uma quantidade muito menor ao povo, com a intenção de “sustentar vagabundo”, quando desperdiça dinheiro “dando” as riquezas que a classe média pensa que foi ela quem produziu com moradia, educação, saúde, etc; com bolsas, cotas, auxílios. Mal suspeita que o governo está fazendo muito menos que a sua obrigação, porque esta deveria ser sua função. De toda a riqueza que o trabalhador produziu, recebem apenas migalhas, das quais os revoltados da classe média acham demais. 


Enfim, a classe média acha que a culpa do atraso do país é, em última instância, do povo, pois é o povo, em sua ignorância, segundo eles, que elege os governantes corruptos e que lhes beneficia, negando a “meritocracia” (o sucesso daqueles que vencem no mundo economicamente selvagem da lei do mais forte é justificado sendo atribuído ao “mérito”). Mal sabe ela que é precisamente ela que ela mesma é uma das culpadas do atraso nacional, não sabendo que para que o país cresça como um todo é necessário garantir condições mínimas para o povo, combatendo o abismo de injustiça e desigualdade que existe entre as classes, entre outras muitas coisas, coisas todos negligenciadas pela ideologia de classe média que só vê aquilo que está mais imediatamente diante dos olhos e não tem, portanto, visão de conjuntura.

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Nota: "Mas e aquele cara que veio do sertão, da favela, da roça, não tinha nada, etc, e conseguiu subir na vida trabalhando honestamente?" Este cara é a exceção, não a regra. A ascensão social é permitida para alguns, mas jamais para a maioria. Assim como alguns  pouquíssimos conseguem, muitos outros tentaram a vida inteira e não conseguiram "vencer" na vida, ascender socialmente. Os assistencialismos do governo até podem ser ineficazes ou mesmo, muitas vezes, um engodo, mas isso não nos autoriza a acreditar que todos tem chances iguais.



Um comentário:

  1. Boa tarde,
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