quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

Mentiras da Ditadura 2: A Ditadura Fez o País se Desenvolver?



Outro argumento muito comum entre os defensores do regime de 64 é que ela foi importante porque permitiu o desenvolvimento econômico do país. Isso pode até parecer verdade graças ao crescimento econômico dos anos 70, mas eu pretendo demonstrar que não é e, ainda mais grave, os militares, com sua política, impediram um desenvolvimento mais profundo, que era possível.

Mas primeiro consideremos as vantagens: o crescimento econômico, exagerado pela propaganda do regime, pelo mote “Milagre Econômico”, juntamente com motes ainda mais esdrúxulos, como “Brasil Potência”. Em 1969 o país atingiu um crescimento de 9,5% do PIB e a inflação se estabilizara abaixo dos 20%. O setor industrial havia expandido, as exportações também. Importamos mais máquinas e equipamentos e aumentamos o consumo de energia elétrica. Montadoras do ABC paulista triplicaram a venda de carros de passeio com relação à 1964, e, nas mesmas datas, 1,66 milhão de aparelhos de televisão contra 4,58 milhões. (Gapari, 2003).

Apesar de suas medidas terem controlado a inflação e gerado boas condições para empresas estatais, o regime era liberal, economicamente falando. Diferente de Vargas, que procurou criar leis alfandegárias para proteger a riqueza nacional, o regime de 64 estava mais próxima a Juscelino Kubitschek, que abriu as portas para o capital estrangeiro e as multinacionais. Está certo: não foi igual JK, mesmo assim:

No início haviam algumas paixões nacionalistas na “revolução” de 64, especialmente pela parte dos integralistas no exército. O regime, porém, apesar de ter posado muitas vezes de nacionalista, esteve sob a asa dos Estados Unidos e do capital estrangeiro. Algumas pessoas confundiram a criação de empresas nacionais como Hidroelétrica de Itaipú, por exemplo, com um gesto de nacionalismo. Mas não foi bem assim: tratava-se de criar uma infraestrutura para atender uma determinada demanda de transnacionais. Não foi a toa o golpe teve apoio espiritual e financeiro dos EUA, e também de diversas empresas estrangeiras, tais como eu citei no texto anterior.

O caminho escolhido pelos militares deram bons resultados em curto prazo, mas consolidou a dependência do país. Não estou dizendo que esta era a intenção dos militares, estou dizendo que esta é a consequência da estratégia que utilizaram. E este caminho também é o caminho da concentração de renda: os ricos ficam mais ricos e os pobres mais pobres. Mesmo tendo garantido pleno emprego nestes anos, e ainda criado o Prorural (1971) que concedia meio salário mínimo a todo lavrador e pequeno proprietário com 65 anos, a concentração de renda aumentou sensivelmente. E o aumento da miséria também. Claro que eles tinham justificativas teóricas – o “superministro” Delfim Netto dizia: "É preciso primeiro aumentar o bolo, para depois reparti-lo". Claro: concentrar mais a renda para só depois distribuí-la. Já conhecemos esta história.

Mas uma das questões, creio, mais importantes, foi o fato de terem impedido a reforma agrária e beneficiado o latifúndio. Eu expliquei no texto O Latifúndio atrasa o País como o latifúndio estrangula o desenvolvimento do país como um todo. Os países desenvolvidos passaram por reformas ou revoluções agrárias, enquanto nós tivemos todas as chances desperdiçadas. Foi esta, aliás, a causa do golpe: impedir as reformas de base de Jango, sua tímida reforma agrária. Mas os militares não questionam a autoridade, e se os latifundiários detém o poder, devem assegurá-lo.

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