quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

A Esquerda e a Direita


Em política, existe mais de uma maneira de definir estes termos. A minha definição certamente desagradá a muitos, pois, dependendo de como conceituamos, muda-se todo um paradigma. É uma definição minha, que busca entender a política de maneira mais ou menos coerente. Portanto talvez nem sempre a definição será apropriada, mas é, creio, uma definição completa e geral.

Em poucas palavras, a direita é aquela que acredita que os males sociais são exteriores ao sistema político-econômico vigente. Para resolver estes males seria necessário eliminá-los reforçando a ordem vigente. Os males viriam então de onde esta ordem não está presente ou deixa lacunas, espaços. Ao contrário, a esquerda pensa que os males sociais são inerentes ao sistema político-econômico vigente, que são causados por ele próprio. Para resolver estes males é necessário substituir a ordem vigente por outra.

Por esta razão a direita tende a ser conservadora, gosta de se referir si mesma desta forma. Ela conserva coisas como a moral (a sua), o comportamento socialmente exigido, a ordem, etc. costuma chamar a esquerda de "radical": não está no padrão, dentro dos limites, mas além deles, no extremo. Quer resolver os problemas promovendo o caos. Já a esquerda, que quer ver as coisas se transformando, chamam-se "progressistas" (têm uma concepção de progresso diferente da direita). Querem ver ruir a lógica da opressão do homem sobre o homem presente nas atuais relações sociais. Como a direita reage contra toda mudança, ela é chamada pela esquerda de "reacionária"

Os termos 'esquerda' e 'direita' foram introduzidos na política durante a revolução francesa, na qual, nos tribunais, os defensores da monarquia e do feudalismo ficavam em bancos à direita, e os defensores da república e do liberalismo, à esquerda. Os liberais eram a esquerda da época, pois o liberalismo ainda era uma utopia. Realizou-se. O liberalismo, não a utopia. Ele não trouxe a igualdade, a liberdade e a fraternidade que prometia. Mas é a ordem social vigente. Os liberais, hoje, são de direita.

Como existem diversos grupos que, sendo de direita e de esquerda, divergem em vários pontos, como o modo de atingir os objetivos, os princípios, etc, pode-se falar em direitas e esquerdas. Existem muitas, das mais extremadas às mais moderadas, e algumas até se confundem. Por exemplo: segundo a minha definição a esquerda inclui de Mahatma Gandi ao Sendero Luminoso. O primeiro é um pacifista, o segundo nem tanto. Existe também um conservadorismo forte dentro da esquerda, o que parece um contra-senso, e é. Existem direitistas que são menos conservadores que certos esquerdistas, ainda que a tendência geral não seja esta. Paralelamente existem direitões que se consideram revolucionários. Isso, para mim, chama-se equivoco, ou mau uso das palavras.

Tem quem diga que o que define a esquerda é a sua preocupação com o ser humano, acima de tudo. Creio que esta seja a tendência (a vida acima do mercado, da propriedade privada, dos padrões normativos), mas não se encaixa sempre. A esquerda tende a considerar que não existe grupo de pessoas que merece viver mais do que outros, por exemplo. Mas nem sempre. Como eu já disse, há conservadorismo na esquerda também. Há quem pense que, não importa o quão desumana seja a luta hoje, tudo será recompensado no futuro, quando tudo melhorar. Que os fins justificam os meios. Também existem pessoas de direita que acreditam mesmo que o liberalismo econômico, quando for consumado, trará paz e alegria para toda a gente. De ambos os lados tem os mais democráticos e os mais ditatoriais (mas nenhuma destas posições - democrático e ditatorial - é pura: ambas convivem em maior ou menor grau).

A esquerda tende à defender minorias oprimidas. Tende a defender a autonomia nacional. Tende a defender a participação do povo na política, a dar voz aos oprimidos. Tende, mas não é nada disse que as define. A direita tende a acreditar em mérito e meritocracia, tende à defender os padrões normativos, tende a defender a desregulamentação da economia, e a despersonificação da autoridade. Tende, mas não é isso que a define. Pessoas de esquerda muitas vezes acusam outras de esquerda de não serem de esquerda "de verdade" e na direita acontece a mesma coisa. A definição que dei garante que todos os grupos possam ser classificados, ainda que nem sempre de forma precisa.

Segundo esta definição, pode-se observar, nem todos que se dizem de esquerda o são. O que o define não é o que dizem, mas o que fazem. Há quem diga, por exemplo, que Hitler era de esquerda. Não era: ele ajudou a conservar a ordem vigente. Há quem argumente: "mas ele estatizou as empresas, garantiu o pleno emprego, era de esquerda!" Não é isso, pela minha definição, que faz alguém ser de esquerda. Sob o nazismo, não havia nenhum "socialismo", mesmo que sob o nome de "nacional-socialismo". A estrutura de poder era a mesma, ainda que toda estatizada: era capitalista. Ele era contra o liberalismo, não contra o capitalismo (ele se dizia contra o capitalismo por confundi-lo com o liberalismo). Existem direitistas liberais e direitistas nacionalistas (economicamente falando) e direitistas liberais e direitistas conservadores (socialmente falando). Um paradoxo: o liberalismo econômico é, hoje, uma forma conservadora de economia. A liberdade de mercados é extremamente conservadora e ajuda a manter a ordem vigente (seus defensores costumam confundir, propositalmente ou não, liberdade de mercados com liberdades individuais).

Também deve ter ficado claro que, sob esta minha definição, sob este meu paradigma, não há meio termo. Não tem como uma pessoas achar que é preciso conservar a ordem vigente e que é preciso destruí-la ao mesmo tempo. Pode a pessoa não saber, estar na dúvida. Mas, quem se diz de "centro" é, para mim, uma direita moderada. Pois o "centro" conserva a ordem vigente, não permite alterá-la. Também não há, consequentemente, neutralidade possível. Ilusória sim, mas jamais efetiva, pois não estamos separados do mundo, observando-o a distancia. Nossos atos tem consequências e nossas omissões também: quem não procura intervir no mundo está, sem querer, contribuindo em favor do status quo. Este texto não é neutro, como nenhum texto: tudo que fazemos leva a marca de nossa visão-de-mundo. O que podemos fazer é tentarmos ser o mais justos e compreensíveis o possível. Mas não neutros: defender a neutralidade, por si só, estabelece um padrão normativo condizendo com o status quo: é, portanto, de direita.

Pra finalizar: é ignorante e primitivo achar que as pessoas que tem uma orientação política diferente da nossa são desonestas. algumas são, é claro, mas não todas. Elas não são necessariamente desonestas, nem ignorantes. é preciso pensar que mesmo nós, defendendo o que defendemos, podemos estar errados. É por isso que precisamos estar em constante aprendizado e reciclagem das nossas ideias. no entanto, acredito no seguinte: sendo a direita ou a esquerda a estar com a razão, a ignorância, a desenformação, a alienação em geral (seja alienação de direita ou de esquerda) só favorecem a direita (ainda que não todas as direitas): para transformar o mundo é necessário compreendê-lo. A incompreensão mantém as formas existentes e até mesmo fazem "recuar" em alguns avanços, em alguns direitos e liberdades conquistadas.

6 comentários:

  1. Interessante a definição de esquerda e direita. Você conseguiu exprimir o conceito popular vigente do espectro político que paira indefinido e não dito sobre a sociedade espectadora do cenário político, em que grupos políticos se apoderam e se despedem do comando estatal seguidamente, como se a oposição fosse sempre a oposição em quaisquer circunstâncias, e reciprocamente a situação.
    Você toma como matéria-prima de argumentação a disposição dos deputados no plenário da Assembleia Nacional Legislativa Francesa de fins do séc. XVIII, no período pré-republicano, em que quem se sentava à direita (clero e aristocracia) defendia a ordem vigente e quem se sentava à esquerda defendia mudanças na estrutura política (burguesia e povo).
    Basicamente - apesar de seu conceito flutuar em uma maré conceitual - , você defende que a direita defende a estrutura política estabelecida em um Estado, enquanto a esquerda defende uma mudança nessa mesma estrutura para algo oposto, de maneira sempre progressista.
    O problema prático dessa definição é a volatilidade exagerada que ganha uma linha política ao ser observada em diferentes momentos históricos. A mesma ideologia pode se ser vista como de esquerda ou de direita, dependendo da posição que ela ocupa na contribuição para uma mudança na estrutura política seja para onde quer que aponte essa mudança em relação á inercia.
    Em relação ao posicionamento da Alemanha Nazista, fica confuso quando o conceito do liberalismo fica desatrelado do conceito de capitalismo, do qual ele é um aspecto inegável, visto que o capitalismo depende da livre concorrência de mercado para existir, por exemplo, a qual, embora acabe incorrendo muitas vezes em monopólio, é um pretexto para sua existência.
    O liberalismo clássico ou liberalismo laissez-faire, uma corrente de fins do séc. XVIII e séc. XIX, por exemplo, inclui conceitos da liberdade individual e econômica fundidos. Há diversas correntes e escolas liberalistas. Algumas descrevem mais a economia, outras menos, mas acabam incorrendo sempre em modificações nas liberdades individuais, já que é impossível desatrelar completamente essas duas esferas.
    Vejo que você tenta decompor todo o tecido político em duas substâncias constituintes básicas, como uma espécie de código binário ou yin-yang; e acho que é um caminho interessante. Mas vejo que esses dois elementos básicos da projeção das intenções humanas, enquanto dicotomia (liberdade X controle), não podem ter suas características primordiais estendidas em 100% dos casos, visto que a mistura entre eles pode ser tão complexa que aparenta gerar outros elementos tão fortemente unidos que não podem ser decompostos na prática, senão apenas para fins didáticos de compreensão analítica.
    Por exemplo: no plano econômico, defendo uma regulação temporária ferrenha dos Estados em relação a emissão de gases estufa e ao fomento de tecnologias mais limpas e menos predatórias em sua cadeia produtiva, visto que o ser-humano está, com muitas probabilidades, se encaminhando, por ignorância e inércia da população e dos detentores dos meios de produção, a um abismo sem volta. Ao mesmo tempo, defendo que haja uma liberdade econômica moderada em relação à tributação dos serviços públicos, já que entendo que nos outros nichos econômicos a sociedade é capaz de manter um ambiente mais saudável sem a intervenção do Estado, mantendo ele apenas um controle sobre a formação de monopólios, não obstante a qualidade e o custo dos serviços oferecidos pela empresa monopólio em potencial.
    Acho que para fins práticos é mais interessante seguir a linha mais difundida, em que à esquerda se encontra o controle econômico pelo Estado e na direita a liberdade econômica. Nesse contexto as liberdades individuais ficam no eixo vertical, estando o libertarismo em um oposto e o totalitarismo em outro.

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  2. Gostei da sua observação Bruno, sem duvida ela é enriquecedora.

    Quanto ao liberalismo, ele é uma das formas de existência do capitalismo. O fascismo manteve o monopólio dos meios de produção e dos bancos na mão do Estado, mas ainda assim era capitalista, pois a economia continua funcionando através da produção de capital. Por isso digo que Hitler era contra o liberalismo, mas não contra o capitalismo: o capitalismo que ele defendia era um capitalismo monopolista, o fascismo.

    Quanto o espectro político ser visto de acordo com "a linha mais difundida", na qual a esquerda se encontra no controle econômico do Estado, creio que seja uma visão pouco precisa. Segundo este espectro fascismo torna-se de esquerda e o anarquismo de direita, como defendem a trupe de analfabetos políticos que se auto-intitulam "anarco-capitalistas".

    Oras, o fascismo concentrou tudo que havia de conservador e fez de tudo para preservar o status quo, e até mesmo regredir em certos aspectos. Já o anarquismo, que defende a abolição do Estado, é um movimento proletário que nasceu das mesmas raízes do comunismo, raízes anti-capitalistas. A coisa fica ainda mais confusa no caso do comunismo que defende um período de fortalecimento do Estado seguido de outro de extinção do mesmo. Neste caso o comunismo seria de direita ou de esquerda?

    Dessa forma me parece que essa definição mais confunde do que esclarece a natureza das concepções políticas.

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  3. Quanto ao fato de o fascismo ter produzido capital, acho que não posso comentar muita coisa, já que não conheço muito bem os princípios econômico-sociais que definem o que é capital. Mas pelo que se costuma entender por capitalismo (seguindo a sua linha de raciocínio, que busca definir esquerda e direita de maneira pragmática e consensual) podemos dizer que se o Estado detém e controla os meios de produção, ele sem dúvida não tem anda de capitalista. Como se chamaria isso no mesmo vocabulário? Meio de produção estatizado?
    Falando do espectro "mais difundido" (realmente não sei se é o mais difundido, mas é o mais acessível quando procuro sobre isso na net), não podemos deixar de considerar que há o eixo das liberdades individuais também, além do eixo da liberdade econômica. Dessa forma, se analisamos o anarquismo, ele é de direita, por apresentar liberdade econômica, e, dependendo do diagrama, é de baixo também, onde se encontram as posturas libertárias. Ao passo, que na mesma direita, você encontra regimes como as ditaduras do oriente=médio e da áfrica e a china, em que o mercado está escancarado para as multinacionais e o povo está super-controlado pelos chefes de estado. Essa abordagem não busca colocar na direita tudo o que faz mal para o povo e na esquerda tudo o que o faz bem. Apenas tenta, didaticamente, ordenar as posturas do estado diante das liberdades individuais e econômicas, não se preocupando com a "forma" disso, pois é um método científico, não um diagrama moral ou partidário.
    Resumindo, acho as duas abordagens muito válidas, tanto é que as duas são igualmente muito usadas para descrever a realidade política, com a diferença que a abordagem que você defende ainda não parece ter sido sistematizada como você propõe aqui. Ótimo!
    Pelo o que estou vendo, alguns cientistas políticos e sociólogos costumam ver a realidade conforme o "espectro científico", vamos chamar assim. E os alguns dos mesmos, os políticos e o povo em geral costumam olhar conforme o "espectro pragmático", por assim dizer.
    Bom, o comunismo marxista, pelo o que sei, é um estágio mais evoluído do socialismo certo? O socialismo seria o momento em que o Estado se apossaria e controlaria tudo, incluindo o meio de produção, as instituições religiosas, políticas e civis e as terras de todos os tipos. Nesse estágio, pelo "espectro científico" ele seria de esquerda, mas não sei se "de cima" ou "de baixo", pois não sei como ele trata as liberdades individuais. Aí, evoluindo para o comunismo (o que não é garantido, vide A HISTÓRIA), economicamente, pelo mesmo espectro, ele passaria a ser de direita, pois não haveria estado para controlar a produção, já que TODAS as pessoas produziriam seguindo os mesmos princípios e com a mesma finalidade. E novamente no âmbito das liberdades individuais, não sei onde ele se encaixaria...
    Coloco uma pergunta aqui: pelo"espectro pragmático", onde se encontraria uma sociedade que teria todas as suas questões reguladas pela média das opiniões das pessoas através da internet?

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  4. Esqueci de complementar que os "regimes como as ditaduras do oriente=médio e da áfrica e a china, em que o mercado está escancarado para as multinacionais e o povo está super-controlado pelos chefes de estado" estão na "mesma direita" mas em cima, onde ficam as posturas totalitárias, no que tange às liberdades individuais.

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  5. Assim, Bruno, a existência do capitalismo não depende da doutrina do liberalismo econômico, ou pelo menos não em todos os momentos. Esse é um equivoco comum. Nos primórdios, ela foi defendida pela burguesia nascente sob a forma do mercantilismo (naquele tempo não havia o termo “capitalismo”). Sob o fascismo, a Alemanha de Hitler e Itália de Mussolini controlaram os mercados. Mas o modo de produção continuou baseada na produção de capital (trabalho acumulado). Não acabaram-se os patrões; eles simplesmente passaram a ser submissos ao Estado. E controlando os mercados, Hitler permitiu o crescimento da Alemanha como país capitalista. Por diversas razões, as formas de existência do capitalismo vão mudando, mas continuam sendo capitalistas.

    O socialismo é outra coisa, que tem como base um modo de produção que não dependa da produção de capital. É mais do que a simples estatização das empresas (não caberia nesta breve resposta explicar exatamente como isso se dá). O comunismo é um tipo de socialismo. O anarquismo é outro. Ambos são socialistas, ambos almejam uma sociedade sem classes sociais. A diferença é que no comunismo deverá haver um período de transição antes de se por fim ao Estado (ver o texto O Que é o Socialismo – Parte Um: http://esperancacritica.blogspot.com.br/2013/09/o-que-e-o-socialismo-parte-um.html ).

    Enfim, é preciso levar em consideração o que cada um diz de si. Nenhum comunista acha que o comunismo é ou se tornará em qualquer momento de direita. Os anarquistas jamais se considerariam de direita, eles repudiam a direita. A maioria se diz de esquerda, e quando não, ao menos tem uma proximidade maior com a esquerda. Estou falando do que eles pensam de si. Da mesma forma, nenhum fascista se diria de esquerda (salvo alguns movimentos bem específicos). Os fascistas, e sobretudo nazistas, sabem que o seu pior inimigo é a esquerda. Eles não cansam de esbravejar o seu ódio sobre elas. Isso mostra apenas uma coisa: o espectro político que coloca o fascismo como sendo de esquerda e o anarquismo como sendo de direita revela unicamente o ponto de vista dos defensores do liberalismo econômico, os liberais, neoliberais e anarco-capitalistas. É a forma como eles enxergam o mundo, e não contempla o ponto de vista das demais ideologias políticas.

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  6. E os partidos que se consideram de centro?
    E a análise científica do tema, é tudo lixo?

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