sábado, 1 de dezembro de 2012

O Que é Uma Falácia?

M. C. Escher, mestre em ambiguidades e perspectivas ilusórias


Existem diversos argumentos que, numa discussão, podem ser utilizados para convencer uma pessoa. Muitas vezes, porém, utilizam-se argumentos falsos do ponto de vista da forma, e não do conteúdo, isto é, uma falácia ou sofisma. Do ponto de vista da forma porque uma falácia pode conter um conteúdo verdadeiro, e não é, necessariamente, uma mentira. Ele é falso do ponto de vista da forma porque falha na lógica formal, na coesão  e são capazes de fazer a inteligencia titubear e chegar à falsas conclusões. São utilizados não somente por políticos e advogados, mas por toda gente, muitas vezes de maneira não intencional. Algumas delas de ordem psicológica são:

Conclusão Irrelevante (Ignoratio elenchi): Quando se conclui algo que não estava em questão. Assim a pessoa pode concluir uma coisa que é verdade, mas não era isso que estava sendo discutido, o que faz, muitas vezes, esquecer o que estava sendo discutido.

Petição de Princípio (Petit principii): Quando se presume aquilo que se está tentando demonstrar. Por exemplo, quando a pessoa argumenta: "Se Deus não existe, quem criou tudo?" Ignora-se que é a própria conclusão que pressupõe que tudo tenha sido criado por alguém, neste caso, Deus.

Circulo Vicioso: É quando tanto o ponto de partida quanto o de chegada carecem de demonstração, apoiando-se mutuamente. Exemplo: "Não é possível aumentar os salários por causa da inflação, que, por sua vez, elimina o poder aquisitivo do salário, pois este aumento de salário gera necessidade de se elevar o preço dos produtos, para pagar os mesmos salários".

Falsa Causa (Non causa pro causa - post hoc ergo propter hoc): Atribui à um fenomeno uma causa falsa, apenas porque este o precedeu. Como quando sua mãe pede para um santo que lhe cure a doença, e quando esta se cura, atribui-se-lhe ao santo, ou quando se culpa a liberalização sexual pelo advento da AIDS.

Generalização Apressada: Quando se atribui ao todo o que é próprio de uma parte, tomando-se a exceção pela regra, quando demonstram o Silvio Santos como exemplo de que todo pobre pode tornar-se milionário.

Contra o Homem (Ad hominem): Consiste em atacar a pessoa, e não o argumento, para provar que ela está errada, como quando se contesta o que diz uma pessoa sobre uma questão técnica com o argumento de que ela não tem uma atitude moralmente correta, ou se tenta contestar a sanidade de quem está falando.

Apelo à Ignorância (Ad ignorantiam): Quando se conclui que determinada ideia é verdadeira ou falsa porque não se pode provar o oposto. Como alegar que Deus existe porque não se pode provar o contrário ou que alienígenas não existem porque não se pode provar que existam.

Apelo à Piedade (Ad Misericordiam) É a chantagem emocional, nem sempre perceptível, que convence a concordar com determinada ideia por parecer uma obrigação moral, muitas vezes alheia à lógica da questão.

Populismo (Ad populum): Vale-se das outras modalidades de falácias para entrar em concordância com o que é aceito pelo senso comum, como discursos políticos carregados de teor nacionalista, para citar só um exemplo.

Apelo à Autoridade (Ad verecundiam): Quando se utiliza a autoridade para convencer o outro de que se está correto, quando, por exemplo, um professor universitário lembra de seu título de doutor para demonstrar que está correto ou quando uma pessoa mais velha recorre à idade, sem discutir diretamente o argumento em questão.

Pergunta Complexa: Combinação de duas perguntas ou mais que, diante da resposta, pode decidir-se apenas por uma delas, aquela que interessa, dependendo da resposta desejada. "Um homem, por exemplo, acusado de roubo, é inquirido insistentemente pelo repórter: 'Você está arrependido do que fez?' Diante da insistência do repórter, o acusado caba por responder 'sim', dando ocasião para que o repórter complemente: 'então você confessa que cometeu o roubo!' (...) se o acusado respondesse com um 'não', a conclusão seria: 'Então (...) nem ao menos se arrepende?'" (pág. 29 e 30).

E também existem outros, de ordem linguística:

Equivoco: Utilização de uma mesma palavra para designar duas coisas diferentes na mesma frase, como quando se confunde propositalmente a palavra "liberdade" no sentido econômico, ou seja, da doutrina do livre mercado, com a "liberdade" no sentido jurídico, físico, espiritual, ou qualquer outra.

Anfibologia: Frases ambíguas das quais se pode concluir mais de uma coisa diferente. Pode-se responder assim uma pergunta sem saber a resposta. Dependendo do resultado, explica-se a interpretação que convém.

Ênfase: Pode-se alterar e controlar o significado de uma oração acentuando-se determinadas partes, utilizando, portanto, um recurso emocional.

Composição: Quando se confunde propriedades de aspectos ou classes diferentes de uma mesma coisa, atribuindo aos predicados o que cabe sucessivamente, mas não simultaneamente.  "O fato de a fotografia das cenas de um filme ser perfeita não autoriza classificar o filme todo como perfeito" (pág. 32).

Divisão: É o inverso da composição, ou seja, atribuir aos predicados o que cabe simultaneamente  mas não sucessivamente. "Ao afirmar que os homens estão desaparecendo porque os índios estão desaparecendo e são homens, comete-se a falácia de divisão, pois os predicados índios e homens são simultâneos, e não sucessivos" (pág. 32).

Referência: KELLER, Vicente e BASTOS, Cleverson Leite. Aprendendo Lógica. 16ª Edição. Petrópolis, RJ: Editora Vozes, 2007.


Um comentário:

  1. Matéria extremamente elucidante não apenas para os pensadores das realidades - os filósofos - mas para todos nós ricos mortais que convivemos o dia a noiute soterrados por mentiras e manipulações de todas as dimensões. wilson moreira de curitiba.

    ResponderExcluir