segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Mentiras da Ditadura 1: Houve Uma Ameaça Comunista?

A ameaça comunista era o pretexto perfeito para a época e integrava o ideal heroico-romântico do nacionalismo militarista

Com a criação da Comissão da Verdade veio a tona toda uma discussão sobre a ditadura militar e, surpreendentemente, toda uma defesa do regime que supostamente teria trazido mais benefícios do que malefícios ao país. É interessante o fato de que os defensores desta tese são contrários a Comissão, preferindo que os fatos fiquem omissos, como se temessem a descoberta de sujeiras das quais juram não existir e só podem acreditar nisso negando a investigação dos casos. Só este posicionamento lança sérias dúvidas à tal conduta. Mas não reduziremos nosso argumento a isso, vamos pressupor que, ainda assim, os defensores da ditadura tem razões para dizer o que dizem.

Pois bem, este pretende ser o primeiro de uma série de textos que demonstram que as argumentações mais comuns em defesa do regime de 64 não se sustentam. O presente texto se refere ao seu pretexto mais utilizado: a de que o golpe foi necessário para proteger o país do comunismo. Os comunistas estavam para dar um golpe de Estado e as Forças Armadas tiveram que tomar o poder até poderem neutralizar as "forças da subversão". Uma mentira esdrúxula. Mas ao mesmo tempo que foi uma mentira, foi uma verdade burra. Verdade burra para alguns, pois é muito comum entre os membros da extrema direita achar que tudo que mostra qualquer sinal de envolvimento com a esquerda é comunismo. Muitos acham que qualquer sindicato, direito trabalhista ou reformazinha de base é comunismo. As principais mentes do golpe, porém, não estavam tão iludidas: elas sabiam perfeitamente que a "ameaça comunista" era apenas um pretexto.

O fato é que o presidente da época, João Goulart, queria fazer uma pequena parte da reforma agrária, retirando terras improdutivas da oligarquia rural. Isso permitiria o país desenvolver-se como país capitalista mesmo (e pretendo demonstrar isso em outro texto, logo). Os latifundiários, no entanto, pensavam diferente. Eles são umas das forças mais poderosas no país desde sempre, e reagiram mais que depressa. Outra coisa que desagradara as Forças Armadas foi a Revolta dos Marinheiros em 64 cujo líder era comunista e defensor das reformas de base de Goulart. Tudo que os marinheiros exigiam, no entanto, eram melhores condições básicas para os marinheiros. Jango os apoiou e concedeu perdão pelo motim.

Não havia, entretanto, a menor condição para os comunistas tomarem o poder. Nem que eles quisessem: o partido não tinha poder militar e financeiro, nem adesão de gente suficiente para isso, e sabia muito bem. É verdade que, mais tarde, quando os comunistas foram obrigados à seguir para a clandestinidade, grupos armados tentaram aproveitar a fama de ameaça ao regime para tentar transformar a mentira em realidade, ou seja, atrair gente suficiente para depor o governo militar. Jamais funcionou. A ameaça comunista era o melhor dos pretextos da época pela existência da guerra fria, assim como hoje o é a corrupção no Brasil ou o terrorismo nos EUA, por exemplo. As razões do golpe eram outras: impedir as reformas de cunho popular, por tímidas que fossem, e restabelecer os poderes nas mãos das elites, isso incluía o capital estrangeiro que temia um desenvolvimento autônomo da indústria nacional, coisa que a faria perder mercados. O golpe teve incentivo financeiro e apoio espiritual dos EUA. Empresas estrangeiras como a Ford, a Shell e a Volkswagen, entre outras, ofereceram seus recursos. Em outra ocasião explicarei melhor as razões do golpe.

O próprio Getúlio Vargas, quando deu o golpe de Estado, utilizou o mesmo pretexto, baseando-se no famoso "documento Cohen", suposto documento comunista do qual eles planejavam tomar o poder. Mais tarde o general Mourão Filho, integralista, assumiu a autoria da carta, comprovando, portanto, ser uma falsificação. Para se ter uma ideia, o mesmo general foi um dos arquitetos do golpe de 64, e o mesmo pretexto funcionou duas vezes.

Para justificar que o comunismo era uma ameaça, perseguiu-se os comunistas e, empurrando-os para a clandestinidade e a luta armada. Estes indivíduos passaram a ser perseguidos e, consequentemente, excluídos das suas atividades "normais", como de seus empregos. Muitas das ações clandestinas tinham o objetivo de gerar subsistência para o grupo. Os militares foram mais fortes, no entanto, e quando acabaram comunistas de verdade, começaram a inventar comunistas novos. Chegaram a prender e torturar inúmeras pessoas, entre as quais artistas, intelectuais, sindicalistas, ativistas ou meros simpatizantes para justificar sua mentira.

A mentira saiu cara de muitas maneiras. Não só pela ignorância generalizada por si própria gerada, e pela censura aos meios de comunicação, como a prisão de mais de 60 mil pessoas por todo país ao longo dos 21 anos de ditadura, 30 mil torturados, 10 mil exilados e 400 mortos e desaparecidos. Bem, isso é o que o governo admite, o que significa que o número foi, sem dúvida, maior. A tortura não fora, efetivamente, necessária. Ela foi uma demonstração de ignorância e brutalidade de um organização cuja disciplina ensina a não pensar, mas apenas obedecer sem questionar a hierarquia, mesmo que esta hierarquia, na sociedade civil, seja determinada por razões econômicas.

General Castelo Branco, o primeiro ditador do regime de 64

4 comentários:

  1. O Augusto Nunes, agora no Roda-Viva, disse isso claramente: ou era a ditadura comunista, ou a militar. Esse maniqueísmo é triste.

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  2. Absoluta falta de segurança nas ruas, organizações criminosas armadas com arsenal das FARCs , rombos nas leis que permitem que criminosos violentos se beneficiem com indultos, progressão de pena, regimes semi-aberto, aberto, escancarado etc. . . O populismo de políticos de partidos no poder que inventaram copa do mundo e gastos tremendos com obras desnecessárias em detrimento das ultra urgentes na areas da saúde pública, segurança e infra estrutura (ficar bem na foto para ser mais visivel internacionalmente). Escandalos de dinheiros na cueca etc. . . A teimosia em não atender o clamor popular para mudança nas leis (diminuição da menoridade penal, fim dos beneficios para criminosos violentos etc. . . ). Onibus sendo incendiados nas ruas a mando de facções criminosas que desafiam o estado com poder de fogo muito maior que das forças policiais. Guerrilhas urbanas na forma de poder paralelo a serviço do narcotrafico . SERÁ QUE NÃO ESTÁ NA HORA DE RESSUSCITAR O MEDICI ?

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  3. O Agnaldo escreve como se não houvesse corrupção - e muita - sob o regime militar. Não Agnaldo, não está na hora não e nunca estará pois a liberdade de expressão é absoluta, aliás se tivessemos o Medici hoje em dia você nem teria liberdade de protestar livremente contra o governo como você faz hoje...

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